Academia Nacional de Medicina

Português Inglês


Anais da Academia

Veja a última edição do
Anais da academia

Sessão de 13 de junho de 2019 – Especialistas apresentam perspectivas para a Residência Médica em Cirurgia na Academia Nacional de Medicina

A Sessão da última quinta-feira (13) na Academia Nacional de Medicina dedicou-se a discutir Residência Médica em Cirurgia no Brasil. Com apresentações de diferentes especialistas – incluindo Acadêmicos da instituição - , o Simpósio reuniu estudantes de graduação e pós-graduação no Anfiteatro Miguel Couto. Sob a organização dos Acadêmicos e cirurgiões Henrique Murad, Samir Rasslan e Orlando Marques Vieira, o Simpósio levantou importantes questionamentos sobre o futuro desta categoria de residência médica.

O Acad. Antonio Egidio Nardi conduz os trabalhos do Simpósio, em mesa formada pelos Drs. Edivaldo Utiyama e Rosana Leite de Melo e os Acads. Orlando Marques Vieira, Henrique Murad e Walter Zin

Após alocução de abertura feita pelo Acad. Antonio Egidio Nardi, o Simpósio foi iniciado pela conferência do Dr. Pulo Corsi, que abordou “Residência Médica em Cirurgia Geral: a Visão do Colégio Brasileiro de Cirurgiões”. Em sua apresentação, definiu o Cirurgião Geral como o médico que, conhecedor das bases fundamentais da cirurgia, seja capaz de utilizá-las na execução de operações nos diversos órgãos e sistemas, incluindo os procedimentos básicos de outras especialidades cirúrgicas, de modo a poder eventualmente tratar de pacientes em caráter emergencial. Ressaltou, ainda, que os limites de sua atuação são ditados pelas necessidades e recursos de sua comunidade, usando como exemplo o médico rural, que, não podendo recorrer a especialistas, só pode confiar em seus próprios conhecimentos.

Acerca da “Formação do Residente em Cirurgia de Cabeça e Pescoço”, o Acad. Jacob Kligerman ressaltou a importância na excelência na formação de cirurgiões nessa área uma vez que, nos casos de cirurgia da tireoide, o primeiro procedimento cirúrgico oferece a melhor chance de cura. Na sequência, perpassou todos os ciclos de treinamento pelos quais o residente desta área deverá passar, elucidando o que se espera dele em cada um destes.

Apesar das inúmeras inovações tecnológicas disponíveis atualmente, o Acadêmico ressaltou que o médico, em determinadas circunstâncias, deixa-se levar pelo “encanto” dos novos procedimentos e avanços tecnológicos, esquecendo-se de sua periculosidade e da importância da necessidade de um adequado respaldo científico, técnico e ético.

Coube ao Acad. Ronaldo Damião discorrer sobre a “Inclusão das Cirurgias por Vídeo e Robótica no Treinamento dos Residentes”, apresentando os principais benefícios do uso da robótica nas cirurgias urológicas. No entanto, afirmou que existem importantes desafios de sua implementação nos programas de residência médica, ressaltando o alto custo deste treinamento, que carece de materiais específicos e ainda escassos no país. Chamou atenção também para o fato de que, mesmo após o treinamento destes residentes, a estrutura hospitalar existente hoje no Brasil não é capaz de absorver estes especialistas, o que leva a mais um desafio, relacionado à curva de aprendizado: é preciso operar muito e constantemente para alcançar um resultado cirúrgico satisfatório. Desta forma, concluiu o Dr. Ronaldo Damião que, atualmente, levando-se em consideração a relação “custo x benefício” no treinamento de residentes, é mais vantajoso investir no ensino da técnica videolaparoscópica, que conta com equipamentos permanentes e de menor custo, além de contar com resultados cirúrgicos estabelecidos amplamente.

Abordando a “Necessidade do pré-requisito de Cirurgia Geral para a Formação do Cirurgião Torácico”, o Acad. Rossano Fiorelli apresentou um histórico da evolução do ensino da cirurgia no mundo e no Brasil, que teve seus primeiros programas implementados em 1948. Discorreu, ainda, sobre a Resolução nº 1 de 14 de maio de 2002, ressaltando que, apesar desta legislação regulamentar o pré-requisito de cirurgia geral para diversas especialidades, dentre as quais a cirurgia torácica. Destacou, no entanto, que na residência em cirurgia geral não existe obrigatoriedade na matéria de cirurgia torácica. Apresentou, ainda, gráficos que demonstram a diminuição tanto na busca pela residência em cirurgia geral quanto na busca por vagas na residência em cirurgia torácica, que conta com uma taxa de cerca de 30% de vagas ociosas.

Ao final de sua apresentação, o Acadêmico ressaltou que, devido às profundas mudanças pelas quais o ensino da cirurgia passou nos últimos anos, é fundamental que o currículo da residência médica em cirurgia no Brasil passe por alterações, aumentando tanto o tempo dispensado para o pré-requisito em cirurgia geral quanto o tempo no qual o residente aprimora suas habilidades de especialista – de 2 para 3 anos, em ambos os casos.

Com apresentação intitulada “A Residência de Cirurgia Cardiovascular não Necessita de Pré-Requisito”, o Acadêmico Fabio Jatene afirmou que o treinamento em cirurgia cardiovascular no Brasil vinha sofrendo um revés devido à diminuição do número de candidatos e ao aumento do número de vagas não ocupadas. Por meio de estudos realizados no Reino Unido, apontou que há um declínio preocupante no interesse ao longo da graduação, que parece resultar da falta de envolvimento com a especialidade, tanto nos currículos de graduação, quanto em eventos extracurriculares.

Tendo em vista esse fato, apresentou a nova matriz de competências do Programa de Residência Médica em Cirurgia Cardiovascular, aprovada em 18 de maio de 2017, com 5 anos de treinamento, com acesso direto a partir de 1º de março de 2018. Sobre as principais mudanças após a implementação deste programa, ressaltou que a formação dos novos cirurgiões cardiovasculares vem sendo acompanhada por mudanças nos programas de treinamento, cuja finalidade é melhor preparar e adaptar a atual geração à nova realidade do mercado de trabalho, em função das constantes transformações, que incluem evolução tecnológica e mudança do perfil da população, visando principalmente melhoria na qualidade dos serviços prestados e na segurança dos pacientes.

Na segunda etapa do Simpósio, o Acadêmico e organizador da atividade, Dr. Henrique Murad, apresentou conferência intitulada “Perspectivas Futuras para a Residência em Cirurgia Cardiovascular”, destacando as áreas que possuem forte tendência à “superespecialização” nos próximos 10 anos, como doenças da aorta, transplante e suporte circulatório mecânico, doença cardíaca estrutural, cirurgia minimamente invasiva, revascularização miocárdica e cirurgia robótica. Tendo em vista este fato, destacou a importância da implementação de 1 a 2 anos de treinamento adicional em áreas como robótica e cirurgias vídeo assistidas.

Sobre os desafios a serem enfrentados pelos futuros cirurgiões cardíacos, ressaltou o trabalho no modelo de integração em medicina multidisciplinar – o chamado “heart team”, afirmando que as sessões desta equipe devem ser mandatórias para que o residente perceba qual o melhor procedimento a ser feito. Além deste fato, pregou a aproximação do cirurgião cardíaco com médicos de outras áreas, como a radiologia, a fim de que o residente possua conhecimento amplo e diversificado da medicina cardiovascular. Por fim, afirmou que o treinamento dos cirurgiões cardíacos deverá ser ainda mais voltado para o desenvolvimento de habilidades como o desenvolvimento de espírito pioneiro e a criatividade, além do empoderamento do estudante, a fim de que o mesmo tenha a confiança necessária para desenvolver habilidade e julgamento cirúrgicos.

A última conferência da noite foi ministrada pela Dra. Rosana Leite de Melo, que abordou “Residência Médica no Brasil: a Visão da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM)”. Em sua apresentação, a Dra. Rosana Melo discorreu sobre o paradigma do aumento massivo do ponto de vista quantitativo no número de vagas nas escolas médicas do país, sem que isso significasse uma melhora do ponto de vista qualitativo e até mesmo na distribuição equânime destes profissionais. Ressaltou que, dos médicos formados no país, cerca de 62,5% possuem um ou mais títulos de especialista, contra 37,5% de generalistas, levantando questionamentos sobre real necessidade de centros formadores de especialistas em todos os municípios do Brasil, sem levar em consideração estudos baseados em evidências sobre a incidência de doenças e a necessidade de cada estado e região.

Sobre os programas de formação de especialistas no Brasil, chamou atenção para a formação baseada em competências, na qual os resultados a serem obtidos dirigem o processo educacional: primeiramente se definem os resultados, depois os processos necessários para alcançá-los. Sobre as resoluções da Comissão Nacional de Residência Médica, destacou que as mesmas buscam instituir normas que visam a promoção da equidade na formação dos especialistas no Brasil, de forma que um especialista formado, por exemplo, no Acre tenha o mesmo nível de excelência que um especialista formado em São Paulo.


Faça o download de nosso APP

       

Av. General Justo, 365, 7° andar
Rio de Janeiro - 20.021-130
Tel: (21) 3970-8150