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Sessão de 4 de abril de 2019 – Programa Jovens Lideranças Médicas organiza Simpósio sobre Saúde Mental do Médico e do Estudante de Medicina

A Sessão do dia 4 de abril abordou um tema cuja importância vem se colocando de maneira cada vez mais contundente entre os profissionais, com especial relevância para a área médica: a saúde mental do médico e do estudante de medicina. O simpósio foi organizado pelo Programa Jovens Lideranças Médicas da ANM, que conta com o apoio da Bayer, sob a chancela do Acadêmico Marcello Barcinski.

Os Acads. Ricardo Cruz, Antonio Nardi, Marcello Barcinski e Eliete Bouskela

Em sua apresentação, abordando a saúde mental do médico, o Acad. Adolpho Hoirisch relatou um pouco de sua experiência à frente do Programa de Orientação Psicopedagógica do Estudante Universitário (UFRJ), salientando alguns dos momentos de “ruptura” pelos quais o estudante de medicina passa, como o primeiro contato com o cadáver e até mesmo o questionamento de sua vocação. Já à frente da junta do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro que analisava os casos de médicos com suspeita de doença mental, pôde explorar um pouco mais as angústias compartilhadas pelos colegas de profissão.

Concluiu que, para além da humanização da relação entre médico e paciente, é preciso que se invista na humanização na forma como a sociedade em geral enxerga o médico, de quem se exige dedicação exclusiva, altruísmo, erudição e neutralidade afetiva. O Acadêmico ressaltou que, em suma, a prática médica exige saúde mental e que, sem esta, todo o resto desmorona. Atentou, todavia, para a necessidade de diferenciação entre o comportamento anormal e a doença mental, que ainda possui estigmas deveras enraizados em nossa sociedade.

Abordando a Saúde Mental do Estudante de Medicina no Brasil, o Acad. Antonio Nardi destacou que as preocupações do estudante de medicina começam ainda na adolescência, chamando atenção para o fato de que esta fase representa uma ruptura em diversos níveis na vida dos jovens. Discorreu sobre as diferentes motivações que levam o jovem a escolher a carreira médica e a necessidade de se desenvolver um novo código de ética nos cursos de medicina, que seja mais acolhedor no que se refere aos sentimentos, dúvidas e angústias pelas quais passam os estudantes de medicina.

Concluiu afirmando que as universidades precisam conhecer e se preocupar com a saúde mental de seus estudantes, apontando os impactos negativos do stress e da síndrome de burnout, tanto para os docentes quanto para os estudantes. Foram apresentadas iniciativas como as Semanas de Saúde do Estudante e os canais de prevenção ao suicídio, como o Centro de Valorização da Vida (188) e o Centro de Referência de Assistência Social (135).

Na sequência, com aula intitulada “Desafios para o Médico no séc. XXI”, o Dr. Ary Gadelha (UNIFESP), buscou compreender os impactos da hiperconectividade na p´ratica médica nos dias de hoje. Segundo o médico, o trinômio hiperconectividade-mundo acelerado-mídias sociais produziu uma realidade favorável ao desenvolvimento de síndromes como o burnout, entendido como a exaustão crítica resultante de uma complexa relação entre expectativas pessoais, cultura de desempenho e maior rapidez, volatilidade e menor clareza nas relações com as empresas.

Indicando caminhos a seguir, o Dr. Ary Gadelha ressaltou a importância de uma maior organização das horas de trabalho e lazer, estipulando-se tempo para sono, atividade física, horário para família e amigos, etc. Também destacou que é preciso alinhar o trabalho com objetivos profissionais e pessoais, demandando uma reflexão contínua sobre o “fazer médico” de cada indivíduo. Evitar a sobrecarga de informações exige que os indivíduos encarem a hiperconectividade de maneira crítica, dosando o tempo de utilização das novas tecnologias e a reflexão sobre seu impacto. Por fim, a fim de evitar a fadiga da tomada de decisões, o Dr. Ary Gadelha ressaltou a importância de delegar funções, compartilhar as decisões (quando possível) e um planejamento das situações potencialmente problemáticas.

Coube ao Acad. Daniel Tabak discorrer sobre “Como Lidar com as Emoções diante de Pacientes Graves”, apontando importantes discrepâncias entre a imagem que se cria a respeito do médico e a realidade da prática da profissão. Destacou que a imagem de médico como um “super-herói” dificulta ainda mais a compreensão da dimensão humana da prática médica que, mais do que tratar doenças, deverá tratar do doente por trás daquela doença. Entre os motivos pelos quais é tão difícil para o médico reconhecer que precisa de ajuda estão o receio de ser visto como fraco, receio de comprometimento da carreira e da confiança por parte dos colegas e pacientes e a visão do burnout como “inevitável” e inerente à carreira médica.

Na conclusão de sua apresentação, após um emocionante relato sobre sua experiência pessoal, o Acadêmico afirmou que somente é possível sentir a dor de alguém, reconhecer seu sofrimento, segurá-lo em nossas mãos e apoiá-lo com nossa presença sem nos esgotarmos, sem obscurecer nosso julgamento se formos total e absolutamente honestos sobre nossos próprios sentimentos, fazendo um apelo para uma prática mais realística e humanizada da medicina.

Em sua apresentação, intitulada “Prevenção como um Novo Paradigma em Saúde Mental”, o Dr. Rodrigo Bressan (EPM-UNIFESP) chamou atenção para os números alarmantes relacionados à saúde mental dos médicos: eles são os que possuem as maiores taxas de transtornos mentais e dependência química, quando comparados aos não-médicos; depressão e transtorno de ansiedade são os diagnósticos mais frequentes entre residentes e pós-graduandos; o abuso de drogas é 60% mais frequente em médicos. Todos esses dados possuem o agravante de que, historicamente, esses problemas são ora negligenciados ou, quando identificados, resultam em punição.

Abordando os métodos de prevenção de transtornos mentais, o Dr. Rodrigo Bressan ressaltou a importância do desenvolvimento da uma sequência de processos mentais: entender, apropriar-se, detectar e tratar. Segundo ele, o adoecimento do médico está associado a um elevado custo social, com perda de capacidade produtiva e exposição de pacientes a riscos.

Abordando “Psiquiatria e Psicologia Positiva”, o Dr. Leonardo Machado (UFPE) afirmou que o conceito trata de temas como felicidade, resiliência, esperança, etc. A tese central da Psicologia Positiva é que o estímulo a pensamentos positivos (sem nenhum tipo de controle ou privação de pensamentos negativos) pode ter um efeito tamponador sobre pensamentos negativos, resultando na diminuição de sintomas ansiosos e depressivos, por exemplo. Em suma, a psicologia positiva não foca somente no combate aos sintomas do adoecimento, mas também no estímulo à saúde mental como um todo, por meio da incitação de emoções positivas. O que propõe a Educação Positiva – conceito apresentado pelo Dr. Leonardo Machado em sua apresentação, é que essas ideias cheguem até os estudantes de medicina, para que, futuramente, estes conceitos estejam associados à prática médica.

Encerrando as apresentações da noite, a Dra. Carmita Abdo fez apresentação sobre “Sexualidade e Saúde Mental dos Médicos”. Por meio de uma apresentação dinâmica e fazendo uso de dados coletados nas pesquisas desenvolvidas pela sexóloga, a Dra. Carmita Abdo fez uma análise das principais questões sexuais que afetam a saúde mental dos médicos no brasil, fazendo recortes de gênero, orientação sexual e idade. Apesar dos dados apontarem para importantes “gargalos” na saúde sexual dos médicos, a Dra. Carmita Abdo destacou que a derrubada de tabus em nossa sociedade e o desenvolvimento da cumplicidade entre médico (o sexólogo) e paciente (o médico) são algumas das principais ferramentas para uma vida sexual mais saudável entre os médicos brasileiros.


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