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Sessão de 26 de outubro de 2017 - Simpósio na Academia Nacional de Medicina discute Tabagismo

A Academia Nacional de Medicina, instituição científico-cultural mais antiga do Brasil, tem aumentado nos últimos anos sua atuação em assuntos referentes à Saúde Pública, por meio da realização de Simpósios, eventos internacionais e da redação de documentos oficiais, todos divulgados em seu portal da internet. Na última quinta-feira (26), a instituição realizou o Simpósio “Tabagismo”, organizado pelos Acadêmicos José Galvão-Alves e Walter Zin.

Acadêmicos Walter Zin, José Galvão-Alves, o Dr. Paulo Saldiva e o Acadêmico Carlos Alberto de Barros Franco na mesa diretora do Simpósio

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em relatório sobre a prevalência do tabagismo no Brasil, o tabagismo, antes visto como um estilo de vida, é atualmente reconhecido como uma dependência química que expõe os indivíduos a inúmeras substâncias tóxicas, sem que haja o conhecimento total de suas consequências para o funcionamento do corpo. O tabaco contém aproximadamente 4.720 substâncias químicas; destas, 43 substâncias provocam câncer, chamadas carcinogênicas, e alteram o núcleo das células.

Em sua fala de abertura, o Acadêmico José Galvão-Alves evidenciou a importância da discussão sobre o tabagismo no mundo atual, a partir de dados que informam que o tabagismo é uma das principais causas preveníveis de morte. Após apresentar introdução a respeito do tema, a sessão passou a ser coordenada pelo Acadêmico Walter Zin, que convidou o patologista da USP, o Dr. Paulo Hilário Nascimento Saldiva, para discutir os Malefícios do Tabagismo e seus efeitos pulmonares.

O Professor iniciou sua apresentação falando sobre o surgimento do tabaco e os fatores psicoativos da nicotina, como o aumento da concentração e resistência para atividades físicas, explicando como ocorre a ativação do sistema de recompensa e a liberação de serotonina nos núcleos neurológicos acumens, amígdala e hipocampo. Em seguida, o patologista ilustrou os danos causados às células do pulmão pela inalação do tabaco, que podem acarretar enfisema e câncer pulmonar, como se dão as lesões pulmonares por vias inalatórias e a lesão cardíaca por vias circulatórias.

Segundo Paulo Saldiva, o fumante possui um estado inflamatório subclínico, uma vez que não há sintomas ou febre aparente. Entretanto, todos os marcadores inflamatórios estão ativos, o que pode resultar em tosse, obstrução das vias aéreas, destruição do parênquima pulmonar, maior vulnerabilidade para infecções inaláveis e bronquite pulmonar. Ressaltou também que o fumo ativo e contínuo faz com que o organismo desenvolva mecanismos adaptativos para suprir as lesões causadas pelas substâncias presentes no tabaco.

O patologista Paulo Saldiva durante sua apresentação

Para finalizar sua apresentação, o professor Paulo Saldiva demonstrou os diversos tipos de enfisema e as modificações que ocorrem no parênquima pulmonar, como destruição da parede alveolar, perda da elasticidade, destruição do leito capilar e o aumento significativo do número de macrófagos. Já nas vias aéreas, há uma maior percepção de muco, inflamação, lesões e fibrose.

O Acadêmico Carlos Alberto de Barros Franco iniciou sua apresentação sobre a terapêutica do tabagismo com o questionamento "Por que o fumante simplesmente não para de fumar?", já que os problemas causados pelo tabagismo são conhecidos por todos. Segundo ele, o fator determinante da dependência química é definido por duas características básicas: a primeira delas é o fator de recompensa – a nicotina oferece prazer ao fumante – e a segunda, abstinência, uma vez que o indivíduo que se dispõe a parar de fumar passa a ter uma série de perdas marcantes. O papel do terapeuta é esclarecer que o impulso de voltar a fumar não permanece por muito tempo, e que, se o indivíduo tolerar esse fenômeno agudo muito insuportável por mais de cinco minutos, ele não permanecerá por um período longo.

Em seguida, o Acadêmico esclareceu que tratar do tabagismo não é especificamente o fornecimento de drogas adequadas, pois não existe remédio que faça alguém querer parar de fumar. O médico deve levar em consideração outros aspectos importantes para o tratamento do tabagismo, como o motivacional, apoio psicológico, orientação, acolhimento e acompanhamento.

De acordo com o Acadêmico, devem ser evidenciados os riscos que possam motivar alguém a abrir mão de um hábito muito prazeroso – ressaltou que a utilização de argumentos como enfisema, câncer ou até mesmo morte não são tão expressivos. No lugar desses exemplos, é preferível destacar as perdas estéticas, o envelhecimento precoce, doenças periodontais e a diminuição da atividade sexual. Durante a gravidez, é indispensável alertar sobre os índices de aborto e prematuridade no caso de mães fumantes em relação a não fumantes. É necessário também apresentar os benefícios de uma vida mais saudável estimulada pela suspensão do tabaco.

Acad. Carlos Alberto de Barros Franco

A partir do momento em que o paciente está disposto a parar de fumar, é iniciado o tratamento pela utilização de remédios, que não estimulam o fumante a parar, mas diminuem as dificuldades e efeitos colaterais da suspensão do tabagismo, para, eventualmente, diminuir a chance de que o indivíduo tenha uma recaída por conta do grande desconforto causado pela abstinência.

Segundo o Acadêmico, existem duas linhas de medicamentos que podem ser utilizados, os de 1ª linha, com comprovação por auxílio na suspensão do tabagismo, e os de 2ª linha, com resultado pouco comprovado, utilizados quando os de primeira linha são inviáveis.

A Terapia de reposição de nicotina é o processo mais comum nesse tipo de tratamento, seu objetivo é a manutenção da oferta de nicotina, em doses cada vez menores, através de uma fonte mais segura, buscando reduzir ou evitar sintomas de abstinência. As formas de reposição são por adesivo transdérmico, goma de mascar, pastilhas, inalação ou aerossol.

Ao final de sua apresentação, Carlos Alberto de Barros Franco discorreu sobre a imunoterapia como novo recurso de tratamento: a injeção de substâncias que estimulam a produção de anticorpos IgG, que funcionarão como bloqueadores, impedindo os receptores nicotínicos de produzir substâncias prazerosas para o organismo, o que faz com que o indivíduo não sinta mais vontade de fumar.


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