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Sessão de 19 de outubro de 2017 – ANM realiza Simpósio sobre Relação Médico-Paciente (RMP)

A Academia Nacional de Medicina realizou, na última quinta-feira (19) mais uma edição do Simpósio Humanidades na Saúde, que em 2016 abordou importantes temas como ética na educação médica e cuidados paliativos no final da vida. Nesta edição, organizada pelos Acadêmicos Pietro Novellino e Ricardo Cruz, o foco foi a chamada Relação Médico-Paciente (RMP). O tema, que é de interesse geral, reuniu Acadêmicos, estudantes, residentes e profissionais da área da Saúde em tarde de conferências no tradicional anfiteatro Miguel Couto.

Os Acadêmicos José Galvão-Alves, Pietro Novellino, Jorge Alberto Costa e Silva (Presidente), Antonio Nardi e Ricardo Cruz

A primeira perspectiva abordada no Simpósio foi a visão do médico Francis Peabody (1881-1927), autor do tratado “The Care of the Patient” (O Cuidado com o Paciente, tradução livre). A palestra do Dr. Ricardo Caminha (UFRJ) enfatizou que a prática médica vai muito além dos conhecimentos técnicos e da prática clínica entre si. Segundo o conferencista, é necessário que os profissionais tenham em vista a diferença entre doença (evento biológico) e a enfermidade (evento humano), compreendendo as implicações e consequências de cada um destes eventos. Ressaltou que o tratamento de uma doença pode ser inteiramente impessoal; todavia, o cuidado de um paciente deve ser completamente pessoal.

Falando sobre a associação entre a RMP e a tecnologia, o Dr. Luiz Roberto Londres (IMC) ressaltou que tanto para auxílio diagnóstico quanto para procedimentos diversos, a tecnologia está cada vez mais importante. Todavia, destacou que esta possui grande valor desde que seja uma coadjuvante do processo, e não o seu ponto principal – afirmou, ainda, que a tecnologia não é capaz de substituir a anamnese ou o raciocínio clínico. Em sua conclusão, classificou como fundamental a RMP, colocando a anamnese como ponto central do encontro clínico e afirmando que uma boa anamnese dá ao médico bem formado 90% de possibilidades de hipóteses diagnósticas corretas.

Com conferência intitulada “RMP e Literatura”, o Acadêmico Mario Barreto Corrêa Lima apresentou diversas obras literárias que trazem valiosas lições acerca do assunto, como “A Morte de Ivan Ilitch”, de León Tolstói e “O Doente Imaginário” de Molière. Dentre as conclusões apresentadas pelo Acadêmico, os convidados foram incentivados a refletir acerca do cuidado, tido como algo simples e arcaico, mas que tem sido ofuscado pelos constantes avanços científicos.

O Acadêmico Mario Barreto Corrêa Lima em sua apresentação

Abordando “RMP no Cinema” o Acadêmico Ricardo Cruz apresentou o resultado de uma enquete realizada em 2016 com mais de 300 profissionais de Saúde, com a pergunta “Qual o filme que você viu e, na sua opinião, melhor expressou as questões que envolvem a relação médico-paciente? ”. Dentre os filmes mais votados estão “O Homem Elefante” (1980), de David Lynch; “Um Golpe do Destino” (1991), de Randa Haines; “Patch Adams” (1998), de Tom Shadyac e “Wit – Uma Lição de Vida” (2001), de Mike Nichols.

Além de integrar a comissão organizadora do Simpósio, o Acadêmico Ricardo Cruz fez apresentou emocionante conferência sobre a RMP no cinema

Na sequência, o Dr. Daniel Azevedo (SBGG) discorreu sobre “Relação Médico-Paciente no Final da Vida”, citando o geriatra Matheus Papaléo Netto, que fez importantes observações sobre o processo de envelhecimento. Em sua conclusão, o conferencista afirmou que os dois principais elementos a serem abordados no atendimento a pacientes na terceira idade são a autonomia e a independência, e que a RMP não deverá ser rebuscada, mas sim conhecer o que faz sentido para aquele determinado paciente, conhecendo e respeitando as vontades da pessoa.

Coube ao Acadêmico Daniel Tabak falar sobre “RMP Diante da Morte”, apresentação durante a qual o oncologista discorreu sobre a dificuldade dos médicos em abordar a morte, uma vez que esta é vista como uma “derrota” ou uma “falha” por parte do profissional, além da uma falta de treinamento na comunicação de más notícias, cuidados ao final de vida e na discussão sobre diretivas antecipadas. Apresentou, ainda, três tipos de “perfis” de médico: o médico onipotente, o médico defensivo e o médico metafísico – este último associado ao maior conhecimento das expectativas e desejos do paciente. Por fim, encerrou sua apresentação com um apelo pela “humanização” da figura do médico, mediante os dados de exaustão emocional e “burnout” entre os profissionais.

Acadêmico e oncologista Daniel Tabak discorreu sobre a dificuldade dos médicos em abordar o tema “morte”

A segunda etapa do Simpósio foi iniciada com a apresentação do TED Talk “A Doctor’s Touch”, na qual Abraham Verghese, médico e professor na Universidade de Stanford, mostra por meio de exemplos pessoais e histórias reais, a importância da interação humana e do relacionamento médico e paciente na cura. Durante palestra, o médico salientou sua preocupação com as mudanças que a tecnologia tem trazido para esse tema.

O Acadêmico Antonio Nardi fez apresentação acerca da “RMP e Angústia”, ressaltando que, apesar de a angústia ser parte integrante de como lidamos com situações complexas (como doenças), é necessário que o médico tome consciência de que é necessário ouvir o paciente para que seja possível obter o máximo de informações. Além deste fato, a adoção de uma postura empática melhora as chances de entender a perspectiva do paciente. Sobre a escolha do tratamento, Antonio Nardi preconizou a existência de um acordo sobre o problema abordado e o plano de tratamento, tendo em vista sempre a cumplicidade com o paciente e a confidencialidade.

O 1º Vice-presidente Antonio Nardi

Encerrando o Simpósio, o Acadêmico José de Jesus Camargo abordou “RMP e a Gratidão”, afirmando que ninguém é capaz de chegar ao fim da vida sem que não tenha sido ajudado por um semelhante. Definida como um elemento básico da relação médico-paciente, a gratidão, assim como o afeto e a empatia, não é um comportamento programável, e depende da disponibilidade emocional de ambas as partes. Ressaltou, ainda, que a desconsideração do sofrimento é uma marca permanente, dificilmente esquecida pelo paciente.

Durante sua conferência, o Acad. José de Jesus Camargo apresentou relatos sobre a importância da gratidão na RMP


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