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Carlos Justiniano Ribeiro das Chagas (Cadeira No. 86)

Membro Titular

Secção de Ciências Aplicadas à Medicina

Patrono da Cadeira No. 86

Eleito: 26/10/1910 - Posse: 26/10/1910 - Sob a presidência de Miguel da Silva Pereira

Saudado por:  Miguel da Silva Pereira

Falecido: 08/11/1934

 

Carlos Justiniano Ribeiro Chagas nasceu no município de Oliveira, no Estado de Minas Gerais, em 9 de julho de 1878, filho de José Justiniano Chagas e Mariana Cândida Ribeiro de Castro Chagas.

A convivência direta com seus tios maternos, dois advogados e um médico incentivaram Chagas a se dedicar aos estudos. Após encerrar os estudos secundários, ingressou no curso preparatório para a Escola de Minas de Ouro Preto por vontade de sua mãe, que gostaria de vê-lo formado em engenharia.

Adoentado, em 1896, depois de reprovado nos exames, voltou para Oliveira. Durante o tempo de recuperação em sua cidade natal, seu tio Carlos, fortaleceu a vontade de Chagas em ser médico e o ajudou a vencer a barreira de sua mãe, que acabou aceitando a opção do filho. Seguiu então para São Paulo, a fim de obter os diplomas básicos exigidos para matrícula no curso médico.

Matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1897, aos 18 anos. Ao longo do curso, dois professores exerceram grande influência em sua carreira: Miguel Couto, que lhe apresentou as noções e as práticas da clínica moderna, e com quem passaria a ter uma estreita amizade; e Francisco Fajardo, que o colocou no estudo das doenças tropicais, especialmente da malária, e que seria de grande importância para sua futura carreira. Para elaborar sua tese, pré-requisito para o exercício da medicina à época, dirigiu-se ao Instituto Soroterápico Federal (atual Instituto Oswaldo Cruz), na fazenda de Manguinhos, levando uma carta de apresentação de seu professor Miguel Couto à Oswaldo Cruz, Diretor do Instituto. Aceito e orientado por Oswaldo Cruz, Chagas começou a trabalhar no Instituto, escolhendo como tema de sua tese o ciclo evolutivo da malária na corrente sanguínea. Doutorou-se, em 1903, com a tese intitulada “ Estudo Hematológico do Impaludismo”.

Em 1904, foi nomeado médico da Diretoria Geral de Saúde Pública e, em 1906, transferiu-se para o Instituto Oswaldo Cruz.

Em 1905, na cidade de Itatinga, em São Paulo, comandou a primeira ação bem-sucedida contra a malária no Brasil. O resultado deste trabalho serviu de base para o combate efetivo da doença no mundo inteiro. Destacou-se ao descobrir o protozoário Trypanosoma cruzi, cujo nome foi uma homenagem ao seu amigo Oswaldo Cruz e a tripanossomíase americana, conhecida como Doença de Chagas. Ele foi o primeiro cientista na história da medicina a descrever completamente uma doença infecciosa: o patógeno, o vetor (Triatominae), os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia.

A descoberta da doença foi levada ao conhecimento da comunidade científica através de uma nota prévia escrita por Chagas, em 15 de abril de 1909, e publicada na Revista Brasil-Médico, em 22 de abril. No mesmo dia, Oswaldo Cruz anunciou formalmente à Academia Nacional de Medicina, que decidiu levar a Lassance uma comissão para verificar o trabalho. Miguel Couto, Presidente da comissão, sugeriu que a nova doença se chamasse Doença de Chagas, mas o próprio Carlos Chagas preferia chamar a doença como tripanossomíase americana.

Em agosto de 1909, Chagas publicou o primeiro volume da revista do Instituto de Manguinhos – Memórias do Instituto Oswaldo Cruz – um estudo completo sobre a doença de Chagas e o ciclo evolutivo do protozoário causador da doença. Esse trabalho garantiu a ascensão do cientista na instituição, sendo promovido a Chefe de serviço, em março de 1910.

Em 26 de outubro de 1910, a Academia Nacional de Medicina reconheceu formalmente o trabalho realizado pelo cientista e o recebeu como Membro Titular Extranumerário, já que não dispunha de lugares vagos no momento. Nessa solenidade, Chagas proferiu a primeira conferência sobre a doença. É Patrono da Cadeira No. 86, da Secção de Ciências Aplicadas à Medicina.

Sua obra não se restringiu à Doença de Chagas. Foi o primeiro a descrever as lesões da medula óssea na malária, descobriu novos e importantes transmissores e revolucionou sua época ao afirmar que a malária era uma infecção domiciliar. Ainda em 1912, Chagas participou de uma expedição ao Amazonas, fazendo um completo levantamento médico-sanitário e das condições de vida da população que habitava a região.

Com a morte de Oswaldo Cruz em 1917, Carlos Chagas foi nomeado Diretor do Instituto Oswaldo. No ano seguinte foi chamado pelo governo brasileiro para chefiar a campanha de combate à epidemia de gripe espanhola, que assolava o Rio de Janeiro. Em seguida o Presidente Epitácio Pessoa o encarregou de elaborar um novo código para a Saúde Pública, o novo regulamento foi aprovado em 1919 e passou a vigorar em 1920, criando-se assim o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), responsável pelos serviços sanitários terrestres, marítimos e fluviais e pelos serviços de profilaxia rural. Designado Chefe do DNSP, criou diversos serviços especializados em saúde, como higiene infantil, combate às endemias rurais, tuberculose, hanseníase e doenças venéreas. Ainda foi criador de escolas de enfermagem e estabeleceu a formação de médicos sanitaristas.

Em 1925, foi nomeado Professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde criou a Cadeira de Moléstias Tropicais e estabeleceu as bases de estudo de higiene em nosso país.

Representou o Brasil em diversos comitês internacionais, principalmente como membro permanente do Comitê de Higiene da Liga das Nações.

Carlos Chagas recebeu, na Alemanha, dois importantes prêmios, concedidos a cientistas de destaque: Prêmio Schaudinn em 1912 e Prêmio Krummel em 1925. Recebeu também o título de doutor honoris causa pelas universidades de Harvard, Paris e Bruxelas. Em 1920, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem da Coroa da Itália.

Faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 8 de novembro de 1934, vítima de um infarto do miocárdio.