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Sessão de 20 de julho de 2017 – ANM realiza Simpósio sobre psicopatologia e análise clínica do Transtorno Bipolar

Com a divulgação dos dados da Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB), que estimam que cerca de 4% da população brasileira sofre de transtorno bipolar, torna-se cada vez mais importante discutir o tema, que ainda é cercado de tabus e informações incorretas ou incompletas. Foi pensando sob essa perspectiva que a Academia Nacional de Medicina organizou, na última quinta-feira (20) um Simpósio abordando a doença. Tendo em sua Diretoria dois grandes nomes da psiquiatria brasileira- Jorge Alberto Costa e Silva (Presidente) e Antonio Egidio Nardi (Vice-Presidente) -, a instituição reuniu diversos especialistas em mais uma atividade acadêmica de grande impacto. Mediante a ausência justificada do Presidente Jorge Alberto Costa e Silva, o Acadêmico e Vice-presidente Antonio Nardi assumiu a Presidência da Sessão.

Os Acadêmicos Adolpho Hoirisch, José Gavão Alves e Antonio Nardi junto aos palestrantes do Simpósio

Os alunos puderam não só acompanhar o ciclo de palestras presencialmente, mas também através do canal de transmissão ao vivo, disponível no site da ANM. Além deste fato, o conteúdo do Simpósio permanecerá disponível para acesso público.

O Simpósio foi iniciado com a apresentação dos Aspectos Históricos do transtorno, em conferência ministrada pelo Acadêmico Antonio Nardi, organizador do Simpósio. Entre os estudos abordados, falou sobre as ideias do médico Paulo MacLean, que desenvolveu a teoria do cérebro “Triúnico”, segundo a qual o cérebro humano está dividido em três partes, dentre as quase está o sistema límbico, que é responsável pela proteção, emoções e sentimentos.

Em seguida, apresentou os fatores considerados de risco para o desenvolvimento do transtorno bipolar, como um histórico familiar de transtorno de humor, estressores psicossociais, histórico de abuso emocional, físico ou sexual e até mesmo hipomania causada por antidepressivos. Dentre os estressores, os classificou em sociais (extrema pobreza, desemprego, etc.), psicológicos (violência ou abuso), ambientais (fuso horário, fatores relativos à luz, turnos, etc.) e biológicos (doenças associadas, gravidez e parto, reações medicamentosas, etc.).

Na sequência, o Dr. Elie Cheniaux (UFRJ), apresentou quadro sobre as representações da bipolaridade no cinema, usando como exemplo o filme ‘Mr. Jones’, no qual o ator Richard Gere interpreta Jones, um homem de 36 anos charmoso, impulsivo e irresistível, que atrai a atenção das mulheres pelo encanto e energia vital. Todavia, a discussão sobre o transtorno bipolar do paciente torna-se central quando seu comportamento começa a estranhar, intercalando momentos de euforia com episódios profundos de depressão.

Também foi abordado o filme “Sede de Viver”, dirigido por Vincente Minnelli, sendo um dos mais famosos filmes sobre a vida do pintor holandês Vincent Van Gogh, interpretado por Kirk Douglas. Chamou atenção para a associação entre o transtorno bipolar e a criatividade, afirmando que as Biografias de grandes artistas relatam altas taxas de episódios compatíveis com transtorno bipolar, especialmente formas mais leves. Dentre as características abordadas, destacou a impulsividade, a abertura à experiência, esforço, ambição, perseverança, autoconfiança, estados afetivos positivos, maiores escores de fluência verbal e de superinclusão conceitual.

Sobre Diagnóstico e Epidemiologia, a Dra. Doris Hupfeld-Moreno (USP), ressaltou que o transtorno bipolar afeta regiões do cérebro cujo desequilíbrio químico causa oscilações ou mudanças no humor, tornando o indivíduo expansivo (eufórico), irritável e depressivo. Além deste fato, causa também alterações no funcionamento cognitivo, afetando os níveis de atenção, memória e organização.

Dentre os vários fatores de risco associados ao transtorno bipolar, chamou atenção para as morbidades associadas, afirmando que trata-se de um transtorno médico grave, potencialmente letal e associado ao maior risco de suicídio (7-10%). Há também comorbidade com abuso de álcool/substâncias, ferimentos por acidentes devido a comportamentos de risco e associação com doenças cardio-vasculares. Apresentou, ainda, dados que mostram que os pacientes portadores de transtorno bipolar vivem entre 8 e 13% menos que o restante da população, tendo duas vezes maior risco de morte por qualquer causa.

Após o intervalo, o Acad. Antonio Nardi voltou a se apresentar, abordando “Suicídio e Transtorno Bipolar”. Segundo o Acadêmico, a bipolaridade é a doença mental que mais mata por suicídio, com taxas que chegam a cerca de 15% dos doentes. Os pacientes têm um risco muito maior de apresentar comportamento suicida do que o resto da população e até metade dos doentes tenta se matar.

Ao final de sua apresentação, afirmou que a melhora destes números está baseada em três pilares: disseminação de informação sobre suicídio, seus sinais e riscos; desenvolvimento de ferramentas de prevenção e evolução do diagnóstico e tratamento adequados. Falou, ainda, sobre o World Suicide Prevention Day, que desde 2003 foi fixado no dia 10 de setembro. Neste dia, eventos numerosos, conferências, campanhas e atividades em diversos países chamam a atenção do público uma das maiores causas mundiais de morte prematura.

A última apresentação da noite ficou por conta do Dr. Ricardo Moreno (USP), que apresentou as Opções Terapêuticas no Transtorno Bipolar, chamando atenção para o fato de que é necessária a realização de uma distinção entre depressão unipolar e depressão bipolar, seguida pela identificação de comorbidades, tanto psiquiátricas (ansiedade, uso abuso ou dependência de substâncias, transtornos alimentares e de personalidade, etc.) quanto as não psiquiátricas (tireoidopatias, esclerose múltipla, lesões em áreas corticais e subcorticais, diabetes, síndromes metabólicas, etc.). O tratamento, neste caso, visa não só a correção das alterações fisiológicas, prevenindo pessoas em risco e possibilitando a intervenção antes do início das alterações moleculares e celulares; o tratamento das pessoas com a doença já instalada, minimizando a gravidade das alterações ao longo do tempo e a correção das sequelas, revertendo os déficits moleculares e celulares.

Na conclusão de sua conferência, o Dr. Ricardo Moreno afirmou que o transtorno bipolar é uma doença complexa e heterogênea, o que demanda a instituição de diretrizes para o tratamento dos pacientes, onde o médico monitorar a eficácia e a tolerabilidade das intervenções terapêuticas disponíveis atualmente.

O Anfiteatro Miguel Couto recebeu Acadêmicos, estudantes e profissionais da área da Saúde em Simpósio sobre Transtorno Bipolar

Na sequência das apresentações, os Acadêmicos Adolpho Hoirisch e Antonio Nardi coordenaram a etapa das discussões, que contou com a participação ativa da plateia presente. Além disso, as contribuições dos Acadêmicos tornaram o debate multidisciplinar e altamente enriquecedor para os convidados presentes, que lotaram o anfiteatro Miguel Couto até o final da discussão.


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