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Sessão de 6 de abril de 2017 - ANM apresenta painel sobre a representação da Depressão na clínica e no cinema

A Academia Nacional de Medicina apresentou painel comparando as manifestações clínicas da depressão e suas diferentes representações no cinema. Organizado pelo Acadêmico Antonio Egidio Nardi, o painel contou com a participação do Dr. Elie Cheniaux, docente do Programa de Pós-graduação do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ) e Membro associado da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ).

Os Acadêmicos Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro, Antonio Nardi, Francisco Sampaio (Presidente), Claudio Cardoso de Castro e o Prof. Elie Cheniaux

Em sua conferência, o Acadêmico e psiquiatra Antonio Egidio Nardi apresentou um breve histórico sobre a evolução do diagnóstico e tratamento da doença, desde as primeiras descrições no século XVII até o DSM 5 (2013) - manual diagnóstico e estatístico feito pela Associação Americana de Psiquiatria, que define as diretrizes para o diagnóstico de transtornos mentais.

O Acadêmico Antonio Nardi abordou os aspectos clínicos da depressão

Chamou atenção para um dado preocupante: dentre os indivíduos diagnosticados com a doença, de 10 a 15% cometem suicídio, sendo esta a 11ª maior causa de morte nos Estados Unidos. Ainda segundo estes dados, 1 em cada 6 adultos sofrerá de depressão ao longo da vida, ressaltando que quase 90% dos deprimidos têm seu desempenho alterado no trabalho, além de desdobramentos para a vida social e em família.

Em sequência, apresentou um panorama da epidemiologia da depressão, destacando que a idade média de início da manifestação dos sintomas é a partir dos 25 anos. Além deste fato, as mulheres têm risco até duas vezes maior que os homens de desenvolverem a doença. Discutiu, ainda, que além dos marcadores biológicos e de hereditariedade, outros também podem ser indicadores “de risco”, como o desemprego, situação de violência ou abuso durante a infância e até mesmo a gravidez.

Dentre os sintomas psíquicos, destacou os sentimentos de tristeza, angústia, ansiedade medo, insegurança, apatia e desespero; os pensamentos “ruminantes”, a diminuição da concentração e a lentificação do raciocínio. Ademais, afirmou que os pacientes depressivos desenvolvem uma interpretação negativa da realidade. Já nas manifestações físicas da depressão, apontou retardo motor, dores difusas, epigastralgia, cefaléia, precordialgia, dores em membros, dentre outros. O apetite e o sono podem ser afetados, e os pacientes podem apresentar tanto quadros de insônia quanto de hipersônia, além de poder experimentar tanto o aumento excessivo quanto a perda do apetite.

O tratamento da depressão, no entanto, possui alguns importantes desafios a serem superados. O primeiro deles é o diagnóstico apurado – é preciso que o médico seja capaz de realizar um diagnóstico diferencial da depressão frente a outras síndromes e de episódios isolados. Há também o fato de que o uso incorreto da medicação – dosagem e tempo de utilização incorretos, além dos efeitos adversos limitantes podem acarretar importantes desdobramentos na qualidade de vida do paciente e nas suas chances de dar continuidade ao tratamento.

Em conclusão, o Acadêmico destacou a importância de um diagnóstico precoce aliado ao tratamento correto. Além disso, salientou que é necessário o uso de terapia combinada: tratamentos farmacológicos e psicoterápicos devem ser utilizados de maneira concomitante. Por fim, fez um apelo a médicos e pesquisadores, chamando atenção para a importância do desenvolvimento de pesquisas por medicamentos mais eficazes e com melhor perfil de efeitos colaterais.

Na segunda etapa do painel, o Professor Elie Cheniaux fez apresentação sobre “A Depressão no Cinema”, chamando atenção para as diferentes matizes existentes dentro do universo dos distúrbios da psique. Destacou que o cinema é uma importante ferramenta para “popularizar” o estudo e a análise de comportamentos humanos e que uma das principais virtudes do cinema é a possibilidade de identificação e empatia, conscientes e inconscientes, com as dores, sonhos e fantasias dos personagens.

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Dr. Elie Cheniaux discorreu sobre as representações da depressão no cinema

O primeiro filme escolhido pelo Professor foi “As Horas”, dirigido Stephen Daldry. O roteiro desta produção conta a história de três mulheres que, apesar de viverem em épocas diferentes, possuem a depressão como uma característica em comum. Em 1923, a escritora Virginia Woolf apresentava sintomas como introspecção, apetite diminuído e dificuldade de concentração. Além disso, experimentava alucinações auditivas, indicando depressão psicótica. Já em 1951, a dona-de-casa Laura Brown se sente infeliz em viver com o marido e o filho de 5 anos de idade - em uma época dominada pela obsessão com o american way of life, sente-se condicionada a assumir o papel de esposa e mãe perfeita. Finalmente, em 2001, Clarissa Vaughan, interpretada por Meryl Streep, é uma mulher sofisticada e culta que, por trás de sua fachada forte e independente, esconde uma vulnerabilidade insuspeita.

Abordando a vida de Vincent Van Gogh, o filme “Sede de Viver” aborda os aspectos do transtorno bipolar do qual sofria o pintor impressionista. Também são descritas as síndromes associadas ao transtorno de Van Gogh, como a mania – caracterizada pelo aumento excessivo de atividade associado à diminuição da necessidade de sono, irritabilidade e impulsividade. Aqui, o Professor Elie Cheniaux chama atenção para a “romantização” existente em torno dos transtornos psíquicos: os sintomas da doença do pintor muitas vezes eram tidos como traços de sua genialidade. O suicídio de Van Gogh também foi abordado, destacando-se o sentimento de desespero e falta de perspectiva.

Por fim, utilizou o filme “Noivo neurótico, noiva nervosa”, de Woody Allen, para abordar a distimia, caracterizada pelo humor cronicamente deprimido, que ocorre na maior parte do dia por pelo menos dois anos. Os indivíduos apresentam proeminente de baixo interesse e de autocrítica, frequentemente vendo a si mesmos como desinteressantes ou incapazes.

As exposições foram seguidas dos comentários e questionamentos do também Acadêmico Adolpho Hoirisch, que foi consultor do Ministério da Saúde na Divisão Nacional de Saúde Mental. Ao final, os Acadêmicos presentes iniciaram importante e acalorada discussão sobre os assuntos abordados em mais um evento de sucesso da instituição.

O Acadêmico Adolpho Hoirisch fazendo seus comentários

 


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