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OBESIDADE NOS PAIS, OBESIDADE NOS FILHOS

A obesidade e suas doenças associadas representam um sério problema de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2014 mais de 1,9 bilhões dos adultos apresentavam sobrepeso, sendo que 600 milhões destes, já eram obesos. Nos países desenvolvidos, estima-se que as despesas médicas relacionadas com a obesidade ultrapassarão 957 bilhões de dólares em 2030.

Diversos estudos sugerem que a obesidade na idade adulta sofre influência de insultos no período inicial da vida, especialmente durante a gestação e o período de aleitamento.

O processo pelo qual os fatores atuantes no ambiente gestacional exercem efeitos permanentes na estrutura, na fisiologia e no metabolismo do indivíduo na idade adulta é definido como “Programação Metabólica” e é considerado um mecanismo chave para a predisposição da obesidade e de outras doenças crônicas nos filhos de pais obesos. Para entender como isso acontece, modelos animais são utilizados, nos quais o ambiente hormonal e metabólico durante o período pré-natal ou pós-natal é alterado através de manipulação do estado nutricional materno.

Estudos com roedores demonstraram que a obesidade materna resulta em maior transporte de nutrientes da mãe para o feto, via placenta, influenciando o crescimento e a formação de órgãos vitais. Portanto, mães obesas têm glicose elevada no sangue que é rapidamente transferida para o feto, estimulando a produção exagerada de insulina pelo pâncreas fetal, fator que é apontado como determinante para o desenvolvimento da obesidade e diabetes na vida futura da prole. Isso pode ser facilmente comprovado, uma vez que a prole já nasce com maior percentual de gordura corporal.

Evidências também apontam que a programação metabólica pode ter maior impacto em tecidos de multiplicação celular rápida, como na maturação fetal do sistema nervoso central e de estruturas associadas (hipotálamo, núcleos hipotalâmicos específicos que regulam a ingestão alimentar e o gasto de energia corporal). Como consequência da programação metabólica, há danos no controle do apetite favorecendo a compulsão alimentar e sendo mais um fator para o desenvolvimento da obesidade na prole.

A obesidade materna também ocasiona na prole acúmulo de gotículas de gordura no fígado (fígado gorduroso ou esteatose hepática). Embora essa alteração no fígado inicialmente não ofereça grandes riscos à saúde na prole, em longo prazo pode favorecer o aparecimento de doenças mais graves, como a cirrose e o câncer de fígado.

Pesquisas recentes com animais e humanos demonstraram que o estado nutricional do pai, no período da preconcepção, também influência a saúde da prole. Já foi documentado que o estado nutricional paterno tem impacto na saúde dos filhos. Os mecanismos que tentam explicar isso ainda são incertos, porém é consensual que a epigenética (transmissão entre pais e filhos além dos genes) seja o pilar para a transmissão das características paternas aos filhos. A epigenética, diferente da mutação genética, se caracteriza por uma alteração na leitura do material genético, presente no espermatozoide, modificando temporariamente ou não a ação de alguns genes importantes para a formação dos órgãos e do metabolismo na prole.

O estudo denominado Framingham Offspring Study sugeriu que quando o pai é obeso, os filhos e filhas gerados podem apresentar diabetes. Este fenômeno acontece mesmo quando os filhos têm uma alimentação saudável e balanceada após o nascimento.

Em camundongos (estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. www.lmmc.uerj.br) pais obesos alteram os centros reguladores do apetite dos filhotes, causando nestes compulsão alimentar e obesidade.

A mãe obesa e o pai obeso afetam independentemente a saúde dos filhos, mas quando os dois progenitores são obesos, as alterações que ocorrem nos filhos são muito mais intensas. Sabe-se que quando ambos os progenitores são obesos há 70% a 80% de risco de os filhos também serem obesos (sugestão de leitura: Ornellas et al. Combined parental obesity augments single-parent obesity effects on hypothalamus inflammation, leptin signaling (JAK/STAT), hyperphagia, and obesity in the adult mice offspring. Physiol Behav 2016:153:47- 55).

No esquema a seguir indicamos as alterações nos filhos causadas pela obesidade dos pais

Legenda: A obesidade materna e concomitantemente elevação das concentrações sanguíneas de glicose e insulina programam o óvulo. Os filhos nascem com aumento de ingestão alimentar (o que pode levar a uma compulsão alimentar) e de gordura corporal, favorecendo o desenvolvimento da obesidade e doenças crônicas na vida adulta.

A obesidade paterna é capaz de gerar alterações epigenéticas no espermatozoide, que, em longo prazo modificam os genes responsáveis pela formação dos órgãos e do metabolismo dos filhos, favorecendo a obesidade no decorrer da vida.

Autores:

Fernanda Ornellas Pinto da Cruz

Marcia Barbosa Aguila

Carlos A. Mandarim-de-Lacerda - Membro Titular da Academia Nacional de Medicina


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