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RISCOS PULMONARES IMEDIATOS E TARDIOS DA EXPOSIÇÃO A POLUENTES AMBIENTAIS

O sistema respiratório se constitui na mais extensa região de nosso organismo em contato com o meio ambiente. São cerca de 300 milhões de alvéolos, que cobrem uma área de 75 a 100 metros quadrados, ou seja, meia quadra de tênis. Deve ser lembrado que apenas meio micrômetro, ou seja, meio milésimo de milímetro separa nosso sangue do gás alveolar. Nessa região dos pulmões ocorrem as trocas gasosas. Todavia, para se chegar até os alvéolos, o ar entra pelas narinas, passa por faringe, laringe e entra na árvore tráqueo-brônquica. A partir da traqueia, as vias aéreas vão se dividir cerca de 23 vezes em um ser humano adulto normal, até o ar alcançar os alvéolos.

O ar inspirado raramente se encontra perfeitamente limpo, puro. Por conseguinte, os pulmões lançam mão de seus mecanismos de defesa para evitar que bactérias e outros agentes infecciosos proliferem em seu interior ou que partículas em suspensão no ar impactem nas vias aéreas e/ou alvéolos e venham a danificar essas delicadas estruturas. As vias aéreas apresentam cílios em sua superfície, que direcionam o muco produzido nas glândulas mucosas para a laringe, onde será deglutido. Nesse muco podem ser depositados micro-organismos e material particulado inspirado, que serão, portanto, eliminados do pulmão. Caso esses invasores cheguem até os alvéolos, lá se encontram células capazes de dar o primeiro combate aos intrusos, os chamados macrófagos alveolares.

Os poluentes encontrados no ar podem ser gases e partículas, também chamadas de material particulado. Dentre os gases e vapores encontram-se: monóxido de carbono, dióxidos de enxofre ou de nitrogênio, ozônio, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, aerossóis de herbicidas, dentre outros. O material particulado inclui minerais (sílica, asbesto, carvão, fibras de vidro, e metais, por exemplo), produtos orgânicos (bactérias, fungos, vírus e seus constituintes), produtos da combustão (cinzas de vulcões, fumaça de cigarros e afins, fuligem da queima de produtos orgânicos, dentre outros), e até mesmo substâncias radioativas provindas de explosões nucleares ou de usinas atômicas). Como se vê neste breve resumo, são inúmeras as possíveis agressões a que nossos pulmões se expõem.

Quando os poluentes vencem a luta contra as defesas do pulmão resultará alguma agressão de maior ou menor grau. Além disso, essa lesão pulmonar pode ocorrer de forma abrupta e avassaladora ou lenta e discretamente.

Passemos a alguns exemplos:

· A inalação contínua de fumaça da queima do tabaco pode destruir os cílios que removem muco das vias aéreas, que, então, se acumula nas mesmas, entupindo-as e resultando, com o passar do tempo, em uma bronquite crônica. Essa mesma fumaça também pode destruir progressiva e inexoravelmente os alvéolos, desaguando no enfisema pulmonar, outra doença do grupo das doenças pulmonares obstrutivas crônicas. Com a perda de alvéolos, ficam comprometidas as trocas gasosas e o organismo passa a ser mal oxigenado e a reter gás carbônico.

· A exposição contínua à fumaça da queima do tabaco pode levar, por outro lado, ao desenvolvimento do câncer pulmonar, o que também ocorre pela exposição aos gases provenientes da combustão de óleo diesel por motores de veículos. Um material particulado especialmente perigoso por sua capacidade de desenvolver câncer é o asbesto (antigamente presente no amianto e outras aplicações), que progressivamente vem desaparecendo do contato humano.

· Há partículas em suspensão no ar capazes de lentamente inflamar o pulmão, espessando suas paredes e dificultando as trocas gasosas. Logo vem à mente a sílica (óxido de silício), por ser muito comum. Os veículos ao rodar, gastam o asfalto ou o concreto e atiram para o ar minúsculas partículas de sílica ou seus compostos, além da fuligem que compõe os pneumáticos. O entorno de uma construção civil mostra-se muito rico nesse mineral. As minas e perfurações de túneis constituem outros bons exemplos, assim como o trabalho em fábricas de cimento, pedreiras e usinas de processamento e isolamento de cascalho.

· A combustão de material orgânico gera poluentes capazes de agredir nossos pulmões. Quando os camponeses lançam fogo à cana-de-açúcar, ou executam grandes queimadas no campo, resulta a fuligem, material também capaz de inflamar os pulmões, alterando sua função e estrutura. Deve-se aqui ressaltar que a maior parte das exposições à queima de matéria orgânica ocorre, na realidade, dentro do lar, na cozinha, onde uma pessoa usa lenha para cozinhar dia após dia. Essa é uma exposição um tanto esquecida, porém de suma importância.

· Bactérias, fungos e vírus têm a capacidade de infectar vias aéreas e alvéolos e produzir quadros agudos de doenças pulmonares. Quem nunca ouviu a palavra “pneumonia”? Além de bactérias propriamente ditas, podemos inalar produtos das mesmas. Assim, as cianobactérias, que existem na Terra há 3,5 bilhões de anos e foram responsáveis pela introdução do oxigênio na atmosfera do planeta, quando se reproduzem podem produzir toxinas, chamadas cianotoxinas. Quanto mais poluído o rio, o lago ou o oceano, mais elas se reproduzem e aumenta a produção de cianotoxinas. Essas toxinas podem ser neurotóxicas, dermatotóxicas ou hepatotóxicas de acordo com a categorização formal. Todavia, se o fígado de um indivíduo for lesado pela toxina, ele é capaz de produzir moléculas que induzirão inflamação séria em outros órgãos, inclusive o pulmão. Trata-se de um quadro avassalador, pois em poucas horas o pulmão, o fígado e outros órgãos perdem suas funções de forma até hoje irreversível. Não se conhece tratamento eficaz para remover as toxinas do fígado, por exemplo. Em 1996, várias dezenas de indivíduos faleceram em Caruaru, Pernambuco, porque foram submetidos à hemodiálise e nas máquinas havia água contaminada por cianotoxinas. Há bactérias, por exemplo, Escherichia coli, capazes de produzir compostos com alto poder inflamatório, os lipopolissacarídeos. Entrando na corrente sanguínea, essas substâncias podem inflamar de tal forma o pulmão, que o indivíduo é internado na unidade de terapia intensiva, e ligado a um respirador artificial para sobreviver.

· A inalação de alguns herbicidas também pode desencadear uma cascata inflamatória extremamente grave no pulmão, podendo levar o indivíduo a falecer por insuficiência respiratória, de forma similar aos lipopolissacarídeos.

· No ar também podem ser encontrados compostos com a capacidade de sensibilizar as vias aéreas de determinados indivíduos susceptíveis, e torná-los asmáticos. A asma brônquica é uma doença inflamatória crônica que pode ser controlada, mas, ainda assim, há agudizações do quadro, que variam de indivíduo a indivíduo. Pólen de flores, proteínas várias de origem animal ou vegetal (incluindo animais domésticos, note-se bem), dentre outros, podem sensibilizar o ser humano e posteriormente disparar uma crise de asma, caracterizada por intensa constrição das vias aéreas e dificuldade de mobilizar o ar nos movimentos respiratórios.

Assim, vimos que o pulmão, apesar de ter uma série de mecanismos de defesa capazes de evitar grande parte da agressão gerada por poluentes encontrados no ar ambiente, nem sempre vence a luta, e surge a doença, quer aguda ou crônica. Como frequentemente não há tratamento curativo para as doenças geradas pela poluição, a prevenção se constitui na principal arma para evitar uma catástrofe. Há equipamentos de proteção para os trabalhadores do campo e das fábricas, por exemplo. É possível melhorar a eficiência da queima e da exaustão dos fogões que utilizam biomassa (carvão vegetal ou lenha), sabidamente responsáveis pela deterioração da qualidade do ar no domicílio, especialmente dos segmentos menos favorecidos da população. No entanto, a maior fração da exposição aos poluentes ocorre no ambiente externo, onde não se podem aplicar medidas individuais de proteção e sim políticas públicas consistentes voltadas para a proteção da saúde humana. Neste particular, os médicos têm cumprido um papel de extrema importância, mas ainda terão muito a fazer. Primeiramente, devemos continuar a produzir a melhor ciência possível, esclarecendo os mecanismos e as consequências adversas da exposição prolongada aos poluentes do ar. Estamos também plenamente qualificados para informar autoridades e população, de forma clara, acerca dos riscos à saúde gerados pela poluição do ar, como já feito com o cigarro, o escapamento do motor a diesel, o asbesto, ou alimentos pouco saudáveis, dentre outros. Os médicos, por seus conhecimentos da gênese e evolução das doenças, encontram-se em posição privilegiada para, em conjunto com profissionais de outras áreas, apontar os aspectos e desvios éticos e morais de uma situação ambiental que possa influenciar negativamente a saúde. Finalmente, deve-se ressaltar que é necessária perseverança, visto que, em muitas situações, os meios necessários para reduzir a poluição poderão exigir grandes somas de recursos, e, por conseguinte, encontrar resistência significativa para sua implementação. Porque se insiste nas queimadas? Por que não se priorizam com mais vigor as fontes de energia mais limpas? Porque não se investe prioritariamente em transporte coletivo de baixa emissão? Nossa água e suas origens poderiam ser descontaminadas e a poluição adicionada ao longo do trajeto de um rio, por exemplo, evitada. Sempre custa menos prevenir do que tratar as doenças que afligem o ser humano.

Autores:

Paulo Hilário Nascimento Saldiva - Professor Titular de Patologia, Departamento de Patologia, Faculdade de Medicina, USP-SP.

Walter Araujo Zin - Membro Titular da Academia Nacional de Medicina

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