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OBESIDADE E DOENÇA RENAL CRÔNICA: UMA RELAÇÃO PERIGOSA

A obesidade é uma doença crônica multifatorial caracterizada pelo acúmulo excessivo de tecido adiposo que pode se instalar em consequência de um aumento da ingestão alimentar ou redução do gasto calórico em consequência do sedentarismo, ao ponto de ter um impacto negativo na saúde do indivíduo, com redução da expectativa de vida e aumento da incidência de problemas de saúde. O excesso de peso é calculado através do índice de massa corporal, o IMC. O IMC ideal está na faixa de 20 – 25 Kg/m², enquanto que indivíduos com sobrepeso apresentam IMC de 25,0 – 29,9 kg/m² e indivíduos obesos, IMC ≥ 30 kg/m².

Desta forma, a obesidade é considerada uma grave epidemia mundial, afetando tanto a população de países em desenvolvimento quanto de países desenvolvidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estatísticas indicam que mais de 1,4 bilhão de pessoas com mais de 20 anos estão acima do peso no mundo todo.

Um estudo divulgado em 2015, acerca do ano de 2014, realizado pelo Ministério da Saúde, abrangendo todas as capitais dos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal, denominado de Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) demonstrou dados alarmantes sobre o índice de obesidade no Brasil. Aproximadamente 52,5% da população brasileira estão acima do peso, sendo que em 2006 o excesso de peso dos brasileiros atingia 43% – o que representa um crescimento de 23% em 9 anos.

A obesidade pode levar a uma condição clínica chamada de Síndrome Metabólica. Esta síndrome agrega diversas patologias como a hipertensão arterial, resistência à insulina, apneia, doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2, dislipidemia, trombose e diversos tipos de câncer. O risco de desenvolver doenças cardiovasculares aumenta 20% nos indivíduos com sobrepeso e até 50% nos indivíduos obesos, levando ao aumento do risco do infarto do miocárdio. Já o risco de desenvolvimento do Diabetes Mellitus tipo 2 aumenta 20% para cada ganho de 1 kg/m² no IMC. Além dessas doenças, a obesidade acarreta outros efeitos maléficos à saúde do indivíduo, como por exemplo, a doença renal crônica.

A doença renal crônica (DRC) é caracterizada por alterações heterogêneas que afetam tanto a estrutura quanto a função renal. É uma doença de curso prolongado, insidioso e que, na maior parte do tempo de sua evolução, é assintomática. Muitos fatores estão associados tanto à etiologia quanto à progressão para perda de função renal e, por estes motivos, é importante reconhecer quem são os indivíduos que estão sob o risco de desenvolver a DRC com o objetivo do diagnóstico precoce.

As principais causas da DRC são a hipertensão arterial e Diabetes Mellitus tipo 2, indicando, então, que a obesidade apresenta uma relação direta com a lesão renal. A dislipidemia, o sobrepeso e a obesidade em si também são fatores de risco importantes para a DRC, já que existe uma importante interação entre o tecido adiposo e o rim, levando à doença renal que pode progredir para o estágio terminal. Já foi demonstrado que a obesidade per se aumenta em 54% o risco de lesão renal, independente da hipertensão e Diabetes. Além de ser a causa primária da lesão renal, a obesidade também pode aumentar a perda funcional renal em pacientes portadores de nefropatias.

O tecido adiposo produz citocinas inflamatórias, como o TNF-α (fator de necrose tumoral alfa), que são relacionadas à indução de lesões renais na obesidade. Além disso, a deposição de lipídios nos rins em decorrência da obesidade leva à alteração da estrutura das células tubulares, inflamação e fibrose renal.

Pequenas alterações renais levam a grandes alterações no organismo, já que os rins possuem um importante papel na manutenção da homeostasia do organismo, promovendo a manutenção do volume e da composição dos fluidos corporais, dada principalmente pelo processo de filtração do plasma sanguíneo. Os rins também desempenham outras importantes funções como a eliminação de toxinas e de outras substâncias nocivas produzidas pelo organismo, a regulação do equilíbrio de água e eletrólitos de forma a manter um balanço entre a eliminação e o consumo dos mesmos. Além disso, esse órgão regula a pressão arterial através da eliminação de quantidades variadas de água e sódio, libera de substâncias como a renina, que posteriormente levam à formação de substâncias vasoativas (angiotensina), regula a produção de eritrócitos (através da secreção renal de eritropoietina) e mantém o equilíbrio ácido-básico.

A incidência dos casos de DRC vem aumentando significativamente nas últimas décadas, atingindo níveis alarmantes (10% da população mundial) e representam um grande problema de saúde mundial. Dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia indicam que aproximadamente 100 mil pessoas fazem diálise no Brasil, sendo que 70% desses pacientes descobriram a doença tardiamente e a taxa de mortalidade para quem enfrenta o tratamento é de 15%. O tratamento dialítico, contudo, é apenas uma modalidade paliativa e, efetivamente, não é uma cura para a doença.

Devido à alta taxa de mortalidade, é de grande importância o acompanhamento dos pacientes que se enquadram no grupo de risco, para a prevenção e tratamento precoce da DRC, além da pesquisa por tratamentos alternativos. Nesse sentido, criação de estratégias de redução do peso corporal nos casos de sobrepeso e obesidade é de extrema importância para e diminuição do número de casos.

Autores:

Fernanda Magalhães Ferrão

Eliete Bouskela - Membro Titular da Academia Nacional de Medicina

Laboratório de Pesquisas Clínicas e Experimentais em Biologia Vascular (BioVasc), Centro Biomédico, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


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