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NOMOFOBIA: UMA NOVA PATOLOGIA OU ADAPTAÇÃO AO NOVO?

O termo “Nomofobia” se originou na Inglaterra a partir da expressão “No-mobile” que significa sem telefone celular (TC). Essa expressão uniu-se à palavra “fobos” do grego que significa fobia, medo. A associação das palavras resultou no nome Nomofobia – a fobia de ficar sem o TC. O mundo moderno viu a necessidade de criar uma nomenclatura específica que pudesse representar os sentimentos e sensações que estavam sendo observados nos indivíduos relacionados às novas tecnologias. Entretanto, o termo Nomofobia teve seu significado ampliado e encontrou o seu lugar para designar o desconforto ou angústia causados pela fobia de ficar desconectado (off-line), de ficar incomunicável ou pela impossibilidade de comunicação por intermédio do TC, computador ou outro aparelho de comunicação digital.

As novas tecnologias do mundo digital, os softwares, hardwares, telecomunicações, entre outras, têm influído no nosso cotidiano, causando um impacto significativo em todos os aspectos da vida e da sociedade, e produzindo mudanças comportamentais, de hábitos e costumes que não podemos deixar de acompanhar os efeitos causados por esta relação.

Os computadores e/ou internet e TC se tornaram indispensáveis no dia a dia. E, de posse destes instrumentos, encontramos comunicação imediata, contatos ágeis e fluidez de informações imprescindíveis para quem busca praticidade e autonomia.

As tecnologias de comunicação ampliam as dimensões do mundo e modificam a percepção da realidade, do tempo e do espaço. O mundo digital nos permite conhecer outras civilizações e viajar pelo planeta ou até mesmo para fora dele, e tudo sem sair de casa. E quando saímos e levamos o TC ou o computador, esta possiblidade se estende para fora de casa nos dando uma mobilidade até então, inimaginável. Podemos encontrar e ser encontrados a qualquer momento ou nos conectar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo sem depender de um cabo ou rede física por perto.

O TC nos seduz e o computador nos atrai, sendo assim, nos tornamos presas fáceis desses dispositivos. Podemos de casa ou da praia, pesquisar na internet sobre qualquer assunto, trabalhar com pessoas à distância, conectar amigos e colegas de profissão, participar de redes sociais, resolver inúmeros problemas e prestar serviços. Ver como as tecnologias vão se sobrepondo e evoluindo. Uma servindo de base para a outra e se aperfeiçoando com o tempo e com o conhecimento.

Atualmente, existe uma parafernália tecnológica seduzindo os consumidores. Acabamos cedendo aos apelos, muito bem elaborados pelas estratégias de marketing e compramos aquele modelo de computador, último tipo, que acabou de sair do forno. Neste momento chegamos a pensar que estamos com tudo em cima para realizar nossos trabalhos, mas, essa satisfação dura pouco, o tempo suficiente para percebermos que a mesma empresa e outras cem concorrentes, aperfeiçoaram a tecnologia e lançaram novos hardwares e softwares melhores e com maior potencial.

A consequência dessa evolução tecnológica desenfreada pode atingir pessoalmente o indivíduo nos aspectos cognitivo-comportamentais e sociais, como também, pode ser devastadora para o meio ambiente. Assim como observamos novas práticas, adequadas e inadequadas, hábitos bons e ruins e alterações sociais, físicas e comportamentais provenientes da convivência do indivíduo com o computador e com o TC, vemos também que, cada um de nós, está produzindo uma grande quantidade de lixo eletrônico.

Ninguém mais consegue viver sem a mobilidade, a facilidade e a conveniência que nos permitem os telefones celulares e computadores. Com certeza chegaram para ficar, se tornaram nossos melhores amigos e não conseguimos viver mais sem a sua companhia. São raros os que não os consideram objetos de primeira necessidade. Hoje não saímos de casa sem eles. Assim como não podemos esquecer as chaves, a carteira e os documentos, também não podemos deixar de levar o computador e o TC (de marcas, tamanhos ou modelos diferentes).

As novas tecnologias nos possibilitam desfrutar de grande autonomia e liberdade de ação. Na rua, de posse do TC, vamos onde queremos sem perdermos os compromissos. Antes quando alguém ficava de ligar para marcar algo, se não quiséssemos perder o compromisso, tínhamos que passar o dia em casa ao lado do telefone esperando a ligação. Os filhos não ficam mais sem os pais, os casais sem os encontros repentinos e os chefes sem nos passar as tarefas extras. Em contrapartida, tem os que achem essa prática invasiva, se ressentindo desse controle abusivo.

Os limites do particular e do compartilhado estão cada vez mais estreitos e sutis. A comunicação globalizada vem promovendo monumental alteração na vida pessoal, nas relações e na sociedade que consideramos difícil distinguir o que deve ser particular do que pode ser compartilhado. Nas redes sociais, por exemplo, ao aceitarmos os convites de amizade, temos a sensação de que nossa vida se tornou pública, nos tornamos uma novela em que os expectadores “amigos virtuais” podem nos acompanhar em capítulos diários. Os costumes, hábitos e comportamentos não são mais os mesmos. Tudo o que é dito pode ser espalhado, tudo o que é escrito pode ser divulgado, tudo o que é filmado ou retratado pode ser postado e alcançar o mundo em frações de segundos. Por isso, todo o cuidado é pouco. Da mesma forma, deslancham os produtos, as propagandas, as novidades, as fofocas e tudo mais que cair na rede. No contexto atual não precisamos mais ficar sozinhos, a vida virou manchete nas redes sociais.

O mundo virtual é um mundo de deslumbramentos e as redes sociais são palcos para que possamos nos apresentar para uma plateia de espectadores assíduos por atender a necessidade de compartilhamento. Nas redes sociais nos sentirmos poderosos, acolhidos, participantes e com a autoestima elevada. Assim como num show, tudo o que se apresenta é um espetáculo, mas, temos que pensar que na vida real é bem diferente. Entre a realidade exposta nas redes sociais e a realidade da vida real existe o infinito. Com isso, pessoas com determinado tipo de personalidade (inseguras, exigentes consigo mesma e com baixa autoestima), têm a possibilidade de desenvolver sentimentos de angústia, tristeza, desânimo e exclusão. Essa sensação que muitos têm de não estarem inseridos em nenhum contexto e de que tem uma vida sem graça e sem “glamour”, comparada a aquelas virtuais, pode gerar sentimentos indevidos de inadequação. Por isso, temos o dever de orientar e esclarecer a sociedade e as pessoas menos preparadas, sobre a cultura da fantasia virtual para que não seja privilegiada em detrimento do aprendizado dos valores reais.

Em nome dessa liberdade de comunicação é necessário que haja uma compreensão teórica, em vários aspectos, relativa a essas transformações fruto da relação do homem com o mundo virtual, para que sejam criadas regras de convivência social e pessoal e limites de uso para que não se tornem prejudiciais ou inconvenientes. As transformações psicológicas, econômicas e sociais associadas à chamada revolução das tecnologias da informação e da comunicação, requerem estudos, a fim de não corrermos o risco de realizarmos uma análise limitada e descontextualizada das demandas emergentes.

Entre outros comportamentos observados na sociedade atual, o imediatismo é o que mais está nos chamando à atenção. Este comportamento está sendo intensificado pela pressa e pela falta de tempo, parece que queremos tudo para ontem. Provenientes da relação com as tecnologias, estamos adquirindo o hábito de ter todas as demandas atendidas instantaneamente, e isto pode estar nos trazendo uma sensação de impaciência, irritabilidade e falta de disponibilidade para os outros. Tudo o que queremos saber, perguntar ou nos informar podemos obter sem ter trabalho algum.

Esses comportamentos produzidos pela interação do homem com o seu computador, costumam seduzir e atrair na medida em que atendem plenamente ao desejo narcísico de satisfação imediata. O egocentrismo reforça e mantém a postura de nos mantermos conectados nos dando a falsa ilusão de estarmos participando de algo que nunca fomos convidados. Hoje tudo o que demora e tudo o que requer calma e paciência estão sendo respondidos com desinteresse. Por exemplo, na relação com os mais velhos quando demonstramos impaciência ao lidar com a vagarosidade deles em realizar tarefas. Ou repercutindo na educação, no trato com o outro, quando não vemos mais um obrigado, um com licença ou uma gentileza. São os reflexos da impaciência e competitividade.

Com a observação de todas as mudanças pessoais e sociais, vimos a necessidade de produzir uma avaliação consciente destas consequências e desenvolver maneiras de lidar com todas essas transformações. A relação com o computador e/ou TC pode estar produzindo ao mesmo tempo, inúmeros benefícios, como conforto, autonomia e conveniência, como também, podem estar reforçando comportamentos disfuncionais que precisam ser investigados. Entre eles, dependência, medo, ansiedade, angústia e sentimento de rejeição, causados quando da impossibilidade de se estar conectado à rede, ou quando não conseguimos nos comunicar por intermédio do TC. Nestes casos, esses comportamentos e sentimentos são chamados de nomofóbicos que são os sinais que os olhos experientes dos profissionais da área da saúde precisam, para identificar e encaminhar o indivíduo para o tratamento. Geralmente, os sintomas nomofóbicos costumam estar relacionados com os transtornos ansiosos, por exemplo, com uma fobia social, um transtorno do pânico ou um transtorno compulsivo, entre outros, e precisam ser avaliados por um especialista.

Outro ponto a ser discutido é o efeito que o uso do TC vem tendo sobre a sensação de segurança fictícia, diferente da segurança real. O indivíduo se sente seguro com a possibilidade de poder recorrer a algo que lhe proporciona tranquilidade. Com isso, consegue mais liberdade de ação e autonomia. De posse do TC, alguns indivíduos relatam que não se sentem sozinhos e tem a sensação de estarem sempre acompanhados. Sabem que podem achar ou serem achados prontamente e que contam com uma extensa rede de solidariedade nas redes sociais (os TC com internet). E ainda, podem acessar os mais diversos tipos de atendimento de emergência, como: médicos, psicólogos e hospitais e fazer contato direto com os pais, amigos e familiares.

Devemos constantemente analisar os impactos sociais, cognitivos e comportamentais que estão sendo produzidos incessantemente nos indivíduos, resultados da presença diária destes dispositivos modernos no seu cotidiano. Devemos estar aptos para compreender e interpretar todas as respostas e reações observadas. A relação do indivíduo com as tecnologias de telefonia e computação influenciam e alteram frequentemente o comportamento individual, social, familiar e ambiental. Acompanhar essas mudanças ininterruptamente é fundamental para nos mantermos atualizados, lúcidos e preparados para lidar com as consequências, sejam elas boas ou ruins.

O uso indiscriminado deve ser desaconselhado por orientação dos responsáveis que tem por obrigação intercalar com outras atividades que favorecem o desenvolvimento das crianças. É importante que sejam propostas atividades como esportes, lazer, passeios, entre outras. Para que eles não fiquem apenas ociosos em casa, achando que a única opção é ficar no computador ou no TC. Precisamos ressaltar que o bem-estar da criança aumentará se houver o equilíbrio entre as brincadeiras convencionais e o uso das tecnologias. O importante é que tudo seja equilibrado para que a qualidade de vida seja preservada.

Devido ao novo hábito de permanecer horas a fio em frente ao computador, um grande número de crianças, adolescentes e adultos, estão se tornando sedentários e obesos. Quanto às crianças, a educação para a mudança do hábito deveria partir da conscientização dos pais, responsáveis ou da escola quanto aos problemas em potencial. Quanto aos adultos, estes precisariam perceber os prejuízos causados pela falta de noção.

O importante é estarmos atentos às mudanças e reações percebidas nos indivíduos em relação às tecnologias interferindo no cotidiano. Sendo assim, seremos capazes de detectar as reações devidas e indevidas e tomar as providências necessárias de modo eficiente para amenizar os prejuízos em todos os aspectos. Porque da mesma forma que podemos produzir inúmeros benefícios com as tecnologias, como conforto, conveniência e segurança, podemos também, estar reforçando comportamentos disfuncionais como esquiva social, redução de exercícios físicos e dependência patológica de algum destes aparatos. A medida entre o uso e abuso das novas tecnologias é um limite muito tênue.

Precisamos estimular a prevenção e dosar e equilibrar o tempo frente ao computador nas redes sociais, jogos virtuais, games etc. Não podemos nos privar de uma vida social ao ar livre, curtir momentos de lazer e praticar exercícios físicos. A maioria das pessoas adoram as novas tecnologias, não se trata de condenarmos a prática, mas sim, de estabelecermos uma relação de equilíbrio saudável entre o homem e as “máquinas”. Temos a obrigação como cidadãos de acompanhar os efeitos resultantes desta interatividade, seguir uma ética de uso, estabelecer regras de participação pessoal e em redes sociais e seguir um conjunto de normas e princípios que regulamentam os atos na internet. A educação e o bom senso deverão servir de medida para determinar essa conduta.

Novos conceitos e regras sobre o uso de computadores e TC precisam ser estabelecidos para que possamos colher apenas os frutos saudáveis desta relação e não sofrermos os danos causados pelo uso indevido. Naturalmente as leis e normas vão sendo aprimoradas na sociedade. Assim como há um tempo se dirigia falando ao celular, hoje existe uma lei proibindo. Para todas as questões, pessoais, sociais e ambientais a sociedade vai se transformando para acompanhar os novos tempos. Temos que ter como objetivo principal a detecção das causas e a prevenção de ocorrências graves em situações que envolvam o homem e o meio ambiente. Não basta apenas a existência das leis é preciso que elas sejam cumpridas.

Os pais, educadores e responsáveis pelos jovens e adolescentes, devem assumir o papel de propagadores dos bons hábitos para que estes, quando adultos, possam estar aptos a construir uma mentalidade que os leve a uma sociedade mais justa e sustentável. Precisamos preservar o mundo em que vivemos e garantir a qualidade de vida dos que virão no futuro. A falta de formação dos pais, educadores ou responsáveis, contudo, é limitada e faz com que reduza a sua capacidade de intervenção.

As tecnologias não param de evoluir e de interagir constantemente com os indivíduos. O TC, os computadores, a internet, os tablets e todos os dispositivos modernos de comunicação, são utilíssimos e estão no gosto popular. O importante é procurarmos manter uma relação saudável e comedida com todos estes aparatos tecnológicos no cotidiano, procurando evitar as consequências nocivas e usufruindo com sabedoria de tudo de bom que nos proporcionam. O entendimento correto dos comportamentos, atitudes e consequências do uso e abuso das novas tecnologias é que vai nos dar os parâmetros para desenvolver bons hábitos no cotidiano. Podemos usar os benefícios das novas tecnologias sem que essas nos tragam prejuízos ou interfiram indevidamente na vida pessoal, social e ambiental.

 

Referência Bibliográfica:

King AL, Nardi AE, Cardoso A. Nomofobia. Dependência do Computador, Internet, Redes Sociais? Dependência do Telefone Celular? Impacto das Novas no Cotidiano dos Indivíduos. Atheneu, Rio de Janeiro, 2015.

Autores:

Anna Lúcia Spear King

Antonio Egidio Nardi - Membro Titular da Academia Nacional de Medicina 


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