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Sessão do dia 10 de novembro – Academia Nacional de Medicina discute os avanços e desafios das pesquisas sobre o Zika Vírus em evento internacional

A Sessão do dia 10 de novembro marcou o fim do ciclo de palestras do Simpósio Zika: Conquistas e Desafios um ano após a Declaração de Emergência no Brasil, que durou 4 dias e teve como marcas a multidisciplinaridade e a troca de experiências.

Os Acads. José Gomes Temporão, Marcello Barcinski e Francisco Sampaio (Presidente) e o Prof. Wilson Savino

O evento foi dividido em duas etapas: nos dias 7 e 8, foi discutida a epidemia de zika vírus do ponto de vista das Américas - representantes das Academias de Medicina e Ciências abordaram como a crise, que não é uma crise exclusivamente de Saúde, está afetando estes países e quais os mecanismos utilizados para lidar com a situação. O caráter internacional do Simpósio ficou ainda mais evidente com a participação de organizações supranacionais como a rede IANAS (Inter-American Network of Academies of Sciences) e o IAP for Health, que trata de temas de saúde global.

Foram apresentados estudos ainda pouco disseminados no Brasil, como o do Professor Ian Lipkin, especialista da Columbia University, dos Estados Unidos, que alerta para o fato de que a infecção pelo zika vírus em gestantes pode ter consequências que vão muito além da microcefalia. Segundo o cientista, fetos expostos ao vírus podem desenvolver transtornos como autismo, esquizofrenia, transtorno bipolar e transtorno de déficit de atenção, mesmo em crianças que nasçam sem sinais de microcefalia ou dificuldades cognitivas óbvias. Para isso, ressaltou a importância de um acompanhamento a longo prazo, chamando atenção para o fato de que 80% das infecções por zika são assintomáticas.

A pesquisa do Prof. Ian Lipkin abordou a associação do zika vírus e transtornos como o autismo

O evento também contou com a presença da Dra. Ilona Kickbusch, Diretora do Global Health Centre, que esteve envolvida no desenvolvimento do Quadro Europeu de Políticas de Saúde para 2020. A ex-Diretora do Programa de Saúde da Universidade Yale apresentou alternativas para o gerenciamento de crises globais de saúde, destacando o protagonismo de organizações não governamentais, instituições de pesquisa e até mesmo a sociedade civil.

Na segunda etapa da programação, nos dias 9 e 10, os conferencistas se debruçaram na análise do panorama brasileiro com relação às pesquisas em zika vírus. Nomes como Glaucius Oliva (ex-Presidente do CNPq), Steven Rehen (Instituto D’Or de Pesquisa) e Maurício Lima Barreto (Fiocruz, Bahia) discutiram a capacidade de resposta da Ciência brasileira frente a essa epidemia, dando especial destaque à liderança dos pesquisadores no que se refere à inovação, ciência e tecnologia. A pesquisadora Patrícia Brasil, que esteve à frente dos primeiros registros de casos, se emocionou ao falar sobre seus pacientes, em geral bebês nascidos com microcefalia, ressaltando a necessidade da existência de uma rede de acolhimento para estas crianças e suas famílias, que hoje sofrem com a pouca disponibilidade de informações.

O Prof. Glaucius Oliva em apresentação sobre biologia estrutural e desenvolvimento de drogas contra o zika vírus

O último dia do evento (quinta-feira) coincidiu com a tradicional Sessão Plenária da Academia Nacional de Medicina, que cumpre seu papel de órgão consultivo do Ministério da Saúde fornecendo referências, orientações e recomendações significativas para a área de saúde pública. Em momento solene, foi ofertado diploma de Honra ao Mérito Científico às Professoras Adriana Melo e Ana Maria Bispo: a primeira por descrever pela primeira vez a relação entre o vírus da Zika e as malformações cerebrais e a segunda por detectar pela primeira vez a presença do Zika vírus no líquido amniótico.

O Acadêmico Emérito Sergio Novis fez a entrega do diploma de Honra ao Mérito à Dra. Adriana Melo

A sessão denominada “Epidemia de Zika Vírus: o que vem a seguir?”, da qual participaram os Professores Roberto de Andrade Medronho (Diretor da Faculdade de Medicina da UFRJ), Mauro Martins Teixeira (UFMG), Marcos da Silva Freire (Vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos), Rafael Maciel de Freitas (Fiocruz) e Adriana Melo (Instituto de Saúde Elpídio de Almeida), apresentou as perspectivas futuras de enfrentamento da epidemia, como o uso da cloroquina, um medicamento utilizado contra a malária, que diminuiu a quantidade de células infectadas em até 95% e não possui contraindicações para grávidas. Também foi abordado o uso da bactéria Wolbachia, que, quando presente no mosquito Aedes aegypti, é capaz de reduzir a transmissão do vírus zika. As falas apresentadas destacaram a necessidade de alteração na atual estratégia de combate ao vetor – o Acadêmico José Gomes Temporão chamou atenção para o fato de que as condições estruturais do país, como a ausência de saneamento básico, constituem um quadro complexo na formulação de políticas públicas que sejam, de fato, eficazes.

A última conferência do Simpósio foi proferida pelo Prof. Pedro Vasconcelos, do Instituto Evandro Chagas, considerado um dos heróis no combate à epidemia de zika. O pesquisador ressaltou que um dos fatores mais preocupantes com relação à epidemia é que este era, até então, considerado um vírus sem importância, incapaz de provocar qualquer infecção que merecesse cuidado, tornando-se uma ameaça à saúde pública mundial em velocidade preocupante. Destacou, ainda, que muitos aspectos da patogênese foram descritos, mas aparentemente representam apenas a ponta do iceberg, uma vez que ainda existem inúmeras perguntas sem respostas. Por fim, chamou atenção para a urgência no desenvolvimento de uma vacina contra o zika vírus, classificando esta como uma emergência internacional, principalmente devido ao desconhecimento das consequências da co-infecção de zika, dengue e chikungunya.

O Dr. Pedro Vasconcelos apresentou palestra intitulada “Lidando com a Epidemia do Zika Vírus”, falando sobre as lições, conquistas e desafios do combate à doença

A plateia no anfiteatro Miguel Couto, que se manteve lotado nos quatro dias de evento