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Sessão de 17 de novembro de 2016 – Academia Realiza Simpósio sobre Saúde Pública e Infecções Fúngicas no Brasil

O Simpósio realizado na última quinta-feira (17) na Academia Nacional de Medicina abordou a importância do incentivo às discussões sobre Infecções Fúngicas no Brasil. A organização do Simpósio ficou a cargo do Presidente Francisco Sampaio e do Professor Carlos Morel, que firmaram compromisso de publicar dossiê sobre Doenças Negligenciadas, a partir do material apresentado no Simpósio.

Na mesa diretora, os Professores Dayvison Freitas, Gil Benard, o Presidente Francisco Sampaio e os Professores Carlos Morel e Ziadir Coutinho

O Professor Gil Benard (USP) iniciou as apresentações com aula intitulada “Impacto da Infecção pelo HIV na História Natural das Endemias Tropicais”, abordando doenças como a tuberculose, a hanseníase e paracoccidioidomicose e sua associação ao vírus HIV. Sobre esta última, afirmou se tratar de uma endemia rural que se espalha por toda a América Latina, destacando que 80% dos casos registrados são no Brasil. Sobre a interação com o HIV, revelou que muitos pacientes manifestam a forma oportunista da doença, com reativação de antigos focos.

Em sua apresentação, o Prof. Gil Benard discorreu sobre as associações do vírus HIV com diferentes infecções fúngicas

Na conclusão de sua palestra, afirmou que infecções como a paracoccidioidomicose pioram a história natural e as manifestações clínicas de pacientes imunocomprometidos. Além deste fato, apesar de não haver registro de um aumento de casos de paracoccidioidomicose associada à AIDS, muitas perguntas importantes sobre as consequências da coinfecção ainda permanecem sem resposta.

Para abordar “A Rede de Micologia da Fiocruz”, foram convidados os Professores Ziadir Coutinho e Dayvison Freitas. O Professor Ziadir Coutinho (ENSP – Fiocruz) iniciou sua apresentação definindo “Doenças Negligenciadas” como aquelas causadas por agentes infecciosos ou parasitas consideradas endêmicas em populações de baixa renda. Chamou atenção para os investimentos reduzidos em pesquisas e produção de medicamentos, destacando que mais de 300 milhões sofrem de uma infecção fúngica grave a cada ano. Destes, mais de 1.350.000 pessoas morrem. Em comparação, os óbitos por malária e tuberculose – doenças que recebem um volume muito maior de investimentos - são 1.240.000 e 1.400.000, respectivamente.

O Professor Ziadir Coutinho

Já o Professor Dayvison Freitas (INI – Fiocruz) chamou atenção para o fato de que doenças causadas por fungos atingem, de uma maneira geral, uma população que já se encontra em situação de vulnerabilidade, associada a aspectos sociais e econômicos. Além deste fato, a falta de infraestrutura para o atendimento dos pacientes faz com que doenças como a criptococose possuam taxas de mortalidade entre 43 e 65% nos países em desenvolvimento, enquanto se mantém em 10% nos países desenvolvidos. Salientou a necessidade de uma associação com os mecanismos estatais como o Ministério da Saúde, para a instituição de notificação compulsória e a criação de uma base de dados oficial do Governo.

O Professor Dayvison Freitas em sua apresentação

Por fim, ambos os conferencistas apontaram para a definição um “lócus” nos Ministério da Saúde e Ciência & Tecnologia dedicado ao estudo às doenças fúngicas, para o desenvolvimento de inovação tecnológica, ensino, organização da rede assistencial e vigilância em saúde. O objetivo da criação de uma rede de micologia seria, portanto, criar uma rede de cooperação interinstitucional, visando uma melhor intervenção na saúde coletiva, assistência qualificada e incentivo à pesquisa.

No bloco dedicado à discussão, o Prof. Carlos Morel (Fiocruz) propôs importantes reflexões aos conferencistas e ao público presente, como, por exemplo, a reflexão sobre o desequilíbrio entre a importância médica das micoses e os investimentos na área e a quem caberia reverter este quadro. Além deste fato, o Professor Morel chamou atenção para o fato de que não existem vacinas antifúngicas e que, ademais, as drogas existentes atualmente são ineficientes e caras.

No bloco de discussões, o Prof. Carlos Morel provocou a plateia presente com importantes questionamentos

Acerca dos possíveis caminhos a serem seguidos, chamou atenção para a formação de parcerias para o desenvolvimento de produtos, tendo como exemplo a “TB Alliance”, que procura desenvolver e garantir acesso equitativo aos novos medicamentos contra a tuberculose. Segundo o Professor, antes de a TB Alliance ser estabelecida, não havia candidatos clínicos em fase de desenvolvimento de fármacos contra a tuberculose, muito menos a esperança realista de novos esquemas medicamentosos contra a tuberculose. Atualmente, trabalhando com uma ampla gama de públicos e privados interessados, incluindo empresas farmacêuticas, universidades e outros laboratórios de investigação em todo o mundo, TB Alliance aproveita a ciência para desenvolver novos esquemas de medicamentos contra a tuberculose, necessários para combater esta pandemia.

O Professor Arnaldo Colombo (UNIFESP) apresentou aula intitulada “Infecções Fúngicas: Problema de Saúde Pública Negligenciado no Brasil”, destacando que o cenário socioeconômico brasileiro e as condições estruturais de saneamento básico no país, geram um cenário de risco para infecções fúngicas. Ademais, a negligência do Estado brasileiro frente a esse problema tem como consequência altíssimas taxas de mortalidade por infecções fúngicas no Brasil, principalmente se comparadas àquelas observadas nos países desenvolvidos. Um dos dados apresentados pelo Professor aponta que as doenças causadas por fungos não representam apenas uma ameaça direta de saúde, comprometendo também a segurança alimentar das populações.

O Prof. Arnaldo Colombo apresentou um panorama das infecções fúngicas no Brasil

Ao final de sua apresentação, o médico afirmou que a frequência com a qual essas doenças ocorrem no Brasil e as altas taxas de mortalidade associadas torna necessária a implementação de políticas públicas específicas para atender a população, seja na área rural ou nas grandes cidades. Além deste fato, novos recursos diagnósticos e terapêuticos devem ser agregados ao sistema de saúde para reduzir mortalidade e oferecer melhor qualidade de vida aos pacientes acometidos por micoses invasivas.


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