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Sessão de 29 de setembro de 2016 – ANM aborda aspectos da Hepatite-C em Simpósio

Na Sessão realizada na última quinta-feira (29), os Acadêmicos Carlos Eduardo Brandão Mello e Mario Barreto Corrêa Lima coordenaram Simpósio de atualização em hepatite-C. Além de apresentar importantes características da infecção, foram abordadas as associações da doença com a cirrose e o carcinoma hepatocelular. |O Simpósio reuniu especialistas e profissionais da área da saúde em evento marcante para a agenda científica da Academia Nacional de Medicina.

Os Acads. Carlos Eduardo Brandão, Mario Corrêa Lima, Antonio Nardi, José Galvão Alves (Vice-Presidente), Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro, Claudio Cardoso de Castro e o Dr. Ricardo Cotta-Pereira

O Acadêmico Carlos Eduardo Brandão fez apresentação intitulada “Hepatite-C: O Vírus, Epidemiologia e Manifestações Clínicas”, ressaltando a multidisciplinaridade do tratamento da doença. Salientou que a hepatite-C se encontra em situação endêmica – calcula-se que existam mais de 170 milhões de pessoas contaminadas em todo o mundo, 2,1 milhões só no Brasil. Afirmou se tratar de uma epidemia silenciosa, uma vez que a maior parte dos portadores do vírus apresenta a doença em sua forma assintomática. Segundo o gastroenterologista, um dos fatores mais preocupantes com relação à doença é a alta parcela de infectados (80%) que desenvolve algum tipo de quadro crônico, como a cirrose hepática e o carcinoma hepatocelular.

Os sintomas podem incluir febre, fadiga, perda de apetite, náuseas, vômitos, urina escura icterícia, dor articular, entre outros. Já no campo das manifestações extra-hepáticas, o Acadêmico listou artralgias, parestesias, mialgias, prurido, síndrome nefrótica, anemia aplástica, derrame pleural, entre outros.

O Acadêmico Carlos Eduardo Brandão fez apresentação sobre os principais aspectos da hepatite-C

O Acadêmico Brandão encerrou sua conferência apresentando o quadro da doença no Brasil, apresentado dados que sustentam que cerca de 34% dos pacientes precisam ser tratados com urgência, devido à gravidade de suas lesões hepáticas. Por fim, ressaltou que apesar dos avanços registrados no tratamento da hepatite-C, a melhor forma de combate à doença é o combate aos comportamentos de risco, como uso de drogas injetáveis.

Na sequência, a Profa. Ana Carolina Cardoso Figueiredo Mendes (UFRJ) apresentou palestra sobre “Diagnóstico: Métodos Invasivos e Não Invasivos”, abordando principalmente a fibrose hepática. Segundo a médica, a fibrose hepática é um processo de cicatrização, que representa uma resposta do fígado frente à uma lesão, que pode se dar em decorrência das agressões do vírus da hepatite-C. Salientou que diferentes especialistas apresentam diferentes definições para esta patologia - para os fisiopatologistas, consiste em uma marca registrada de uma doença inflamatória crônica não resolvida; para os patologistas, é definida como um depósito de matriz extracelular associada a mudanças estruturais. Para os hepatologistas, no entanto, determinar o grau de estadiamento da fibrose hepática é de grande importância, uma vez que torna possível predizer, por exemplo, o prognóstico do paciente, a progressão da doença para cirrose e até mesmo o risco de morte por doença hepática, dentre outros.

A Dra. Ana Carolina Cardoso Figueiredo Mendes em conferência sobre os diferentes métodos de diagnóstico

Sobre os métodos invasivos, a Dra. Ana Carolina destacou o uso da biópsia hepática, que apesar de ter sofrido constantes aperfeiçoamentos ao longo dos anos, ainda apresenta alguns eventos adversos, que podem incluir desconfortos, sangramentos e, em alguns casos, até mesmo a morte. Apresentou, então, os métodos não invasivos disponíveis, salientando que estes apresentam algumas vantagens com relação à biópsia, como o fornecimento de outras informações histopatológicas e o menor risco à vida do paciente. A Dra. Ana Carolina Figueiredo Mendes deu especial ênfase aos marcadores séricos indiretos APRI, FIB-4, Fibrotest e Fibrometer, além de dedicar-se a explicar o mecanismo da elastografia.

Falando sobre “História Natural: da Hepatite ao Carcinoma Hepatocelular”, o Prof. Henrique Sergio Moraes Coelho (UFRJ) destacou que a evolução da doença é não-linear e difícil de prever, principalmente porque existem inúmeros cofatores que podem desempenhar um papel importante na evolução da doença, inclusive o início do tratamento. Alguns dos fatores apresentados pelo Professor Coelho foram: idade, sexo, estágio de fibrose, consumo excessivo de álcool, obesidade, diabetes, entre outros.

O Prof. Henrique Sergio Moraes Coelho abordou os diferentes quadros de evolução da doença

Em conclusão, o Prof. Henrique Sergio Moraes Coelho destacou que é necessário buscar novas ferramentas para o diagnóstico precoce, avaliação, tratamento e principalmente prevenção de doenças como a cirrose e o carcinoma hepatocelular, visando reverter o quadro atual, onde os médicos precisam selecionar os casos mais graves para prioridade no tratamento.

Coube ao Prof. Anderson Brito (UFRJ) apresentar aula sobre “Status Perfusional na Cirrose: da Disfunção Endotelial à Microcirculatória”, buscando estabelecer semelhanças entre o paciente cirrótico e o paciente com sepse. Destacou que pacientes cirróticos apresentam diminuição no fluxo sanguíneo e disfunção endotelial progressiva, ambas proporcionais à gravidade da doença. Além deste fato, há associação entre a presença de disfunção microcirculatória e redução da função renal.

Os estudos apresentados pelo Prof. Anderson Brito dão conta da análise das disfunções decorrentes da cirrose

Na conclusão de sua palestra, destacou o uso do propranolol (fármaco anti-hipertensivo) como fator de proteção do paciente cirrótico contra esse mecanismo, sendo observado nesse grupo de pacientes uma melhor função endotelial, associada à uma menor vasodilatação basal, sugerindo uma “preservação” da função do endotélio. Sobre o questionamento levantado inicialmente, concluiu que é possível que o paciente cirrótico se comporte como um paciente “séptico adaptado”, tendo o propranolol como um anti-inflamatório importante neste processo.

Dando seguimento ao Simpósio, o Acadêmico Carlos Eduardo Brandão Mello discorreu sobre a “Situação Atual e Perspectivas Futuras no Tratamento da Hepatite-C”, destacando que o tratamento da doença no Brasil começou há aproximadamente 13 anos. Dentre as novas opções terapêuticas disponíveis, apresentou os medicamentos Sofosbuvir (SOF) e Daclatasvir (DCV). Segundo o Acadêmico, os novos medicamentos dobram as chances de cura da hepatite em relação ao tratamento até agora aplicado, que incluía a injeção de remédios com efeito colateral, como o interferon. No modelo convencional, as chances de cura variam de 40% a 47%, após tratamento realizado entre 48 e 52 semanas; já com o novo tratamento, estima-se uma média entre 12 e 24 semanas, com 90% de chances de cura.

Apresentando as perspectivas de tratamento futuras, o Acadêmico Brandão ressaltou que novas pesquisas com fármacos abrem caminho para tratamentos que forneçam menor resistência por parte dos pacientes, maior eficácia em pacientes difíceis de tratar e menor duração, podendo chegar a tratamentos com dose única.

O encerramento do Simpósio ficou a cargo do Dr. Ricardo Cotta Pereira (Rede D’Or), que fez apresentação intitulada “Tratamento Minimamente Invasivo do Carcinoma Hepatocelular”, destacando que o desenvolvimento de novos instrumentos e a melhoria das técnicas possibilitaram a realização de ressecções hepáticas por videolaparoscopia. As vantagens da videocirurgia sobre a técnica aberta incluem: menores incisões, redução na dor pós-operatória, menor tempo de recuperação dos doentes, menor resposta imune e metabólica, menor tempo de hospitalização, bem como, menores índices de morbidade.

O Dr. Ricardo Cotta-Pereira discorreu sobre o tratamento minimamente invasivo do carcinoma hepatocelular

Ao final de sua conferência, o Dr. Ricardo Cotta Pereira apresentou a hepatectomia laparoscópica como perspectiva cirúrgica futura. Segundo o Professor, esta técnica permitiria inúmeros refinamentos técnicos, devido principalmente à possibilidade de visualização tridimensional do campo cirúrgico e de instrumentos de alta precisão e amplitude de movimento, simulando os movimentos da mão humana.

Após as apresentações, o Vice-Presidente José Galvão Alves, que presidiu a Sessão em virtude de viagem ao exterior do Presidente Francisco Sampaio, comandou rodada de discussões, que contou com a participação dos Acadêmicos e dos conferencistas da noite.

Plateia no Anfiteatro Miguel Couto no Simpósio