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Sessão de 21 de julho – Conferência sobre Suicídio, seus Mitos e os Tabus, é realizada na Academia Nacional de Medicina

Em conferência apresentada na Academia Nacional de Medicina, o Acadêmico e psiquiatra Antônio Nardi falou sobre Suicídio, propondo à plateia formada por Acadêmicos, estudantes e profissionais da área, novas questões e abordagens para o tema. Ressaltou que o suicídio é, além de um problema mental, um problema social, pouco abordado tanto em nossa sociedade quanto no curso médico de uma forma geral.

Bancada Acadêmica e plateia assistem à conferência do Acadêmico Antônio Egídio Nardi

Apresentando um histórico dos registros sobre o tema, o Acadêmico retratou a tragédia de Sófocles sobre o suicídio de Ajax. Na história, Ajax, enlouquecido por não ter recebido as armas divinas após a morte de Aquiles, massacra os rebanhos em vez de atacar os inimigos. Ao perceber o que fizera, se sente desonrado e comete suicídio. Esta visão de suicídio ligado à culpa foi apresentada como uma abordagem característica da Antiguidade. A condenação do suicídio também foi abordada nos escritos de Santo Agostinho e na Bíblia, na figura de Judas Iscariotes.

Para demonstrar a abrangência do problema, foram apresentados casos de suicídios considerados “simbólicos”, como do Presidente Getúlio Vargas, da atriz Marylin Monroe e do ator Robin Williams, que causaram grande impacto na mídia, mas que, devido à falta de informação, acabaram por reforçar diversos mitos sobre o suicídio.

De acordo com a Psiquiatria, o suicídio está invariavelmente ligado a doenças mentais, dentre as quais é possível destacar a depressão. Nesse aspecto, é possível falar sobre casos que chamam a atenção, tanto na história mundial como nos noticiários atuais, como os Kamikazes e os chamados homens-bomba. O Professor Nardi chamou a atenção para o fato de que, apesar da narrativa apresentada para estes casos - de que há uma motivação política para o suicídio - estudos apontam que os indivíduos ligados a essas atividades apresentam indicadores de doenças mentais.

Em seguida, o Acadêmico salientou que o suicídio é também um problema de saúde pública, tendo em vista que no Brasil a taxa de suicídios é de 31 mortes por dia, com 1 tentativa de suicídio a cada 2 minutos. No mundo, o suicídio é responsável por uma morte a cada 40 segundos, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde. Com relação ao tabu existente com relação às taxas de suicídio na Escandinávia, o Professor Nardi alertou que as taxas da região não são as maiores do mundo, mas é a região onde as estatísticas são as melhores estudadas e, portanto, as mais confiáveis; também aproveitou para rebater o mito de que as taxas de suicídio nessa região estão relacionadas ao fato de “não possuírem problemas sociais”.

O Acadêmico Antônio Egídio Nardi apresenta os mitos e tabus do Suicídio

Relatou também que o subdesenvolvimento e as taxas de suicídio estão muitas vezes associados, principalmente em razão da falta de acesso a tratamentos psiquiátricos. Com relação a estatísticas, foi apresentado que, apesar das tentativas serem mais numerosas entre as mulheres (3 vezes mais), as mortes por suicídio são maiores na população masculina (4 vezes maiores). Esse fato se deve, em grande parte, ao maior acesso a armas de fogo. A respeito desse fato, foram apresentados dados do Exército Americano, que hoje já possui mais mortes por suicídio do que mortes por combate, e que por isso instituiu importante programa de prevenção ao suicídio.

Ainda a respeito da relação entre armas de fogo e suicídio, foi apresentado estudo que aponta as principais causas para a redução de 20% nos suicídios nos Estados Unidos no ano de 2010. De acordo com este estudo, em números absolutos, foram prevenidas aproximadamente 3.612 mortes por suicídio apenas por suspender o acesso de indivíduos que apresentassem sinais suicidas de armas de fogo. Para fins de comparação, esses números foram de 600 para separar indivíduos suicidas de fontes de monóxido de carbono e 2.498 para o fornecimento de psicoterapia em serviços de emergência.

Tratando dos fatores de risco, é possível ressaltar a existência de doenças mentais previamente diagnosticadas, tentativas de suicídio anteriores, situações de desemprego/aposentadoria, isolamento social, perdas recentes, doenças crônicas/incapacitantes, dentre outras. Foram apresentados, também, fatores considerados de proteção, como filhos, família, religiosidade, habilidades positivas de resolução de problemas e um apoio social positivo. Também foi constatado que adolescentes e idosos (sobretudo aqueles acometidos por graves problemas de saúde) constituem grupos vulneráveis. O Prof. Nardi alertou que, apesar do senso-comum muitas vezes tratar as tentativas de suicídio como formas de “chamar atenção”, estas são de 8 a 20 vezes mais comuns do que o suicídio propriamente dito - e o risco para o indivíduo aumenta a cada tentativa.

Sobre os tratamentos disponíveis, foi apresentada linha do tempo sobre a evolução dos antidepressivos. O Professor chamou atenção para o fato de que, apesar de uma melhora significativa com relação aos efeitos colaterais advindos do uso destes medicamentos, não houve ganho terapêutico considerável desde a década de 1950. Também foi abordada a eletroconvulsoterapia que, apesar do tabu existente em torno desse tipo de terapia, mostrou-se eficaz em mais de 50% dos pacientes refratários à farmacoterapia. Segundo o Professor, esse tratamento é primeira escolha em depressão grave com sintomas psicóticos, casos de recusa alimentar com grave desnutrição e casos em que há risco iminente de suicídio, entre outros.

Foram expostas também algumas descobertas que apoiam o papel da serotonina na depressão. Segundo pesquisa publicada na revista Science no ano de 1982, há uma diminuição significativa da função serotoninérgica em indivíduos que tentaram suicídio. Além deste fato, foi assinalado que polimorfismos no gene transportador de serotonina podem constituir um importante marcador de risco.

O Professor destacou as campanhas de prevenção, em especial o Setembro-Amarelo - movimento mundial realizado há alguns anos e estimulado por entidades médicas e pelo IASP (Associação Internacional para Prevenção do Suicídio). Com uma ideia simples como o Outubro-Rosa e o Novembro-Azul, que visam, respectivamente, sensibilizar a população sobre os riscos do câncer de mama e das doenças masculinas, o Setembro-Amarelo pretende iluminar grandes símbolos das principais cidades e incentivar ações que levem o amarelo e chamem a atenção da sociedade para a questão do suicídio como um problema de saúde pública que deve ter a atenção de todos e pode ser evitado.

Campanha do Setembro Amarelo busca conscientizar e mobilizar a população acerca da prevenção do Suicídio

Na conclusão de sua palestra, o Professor Nardi salientou que as principais ferramentas para o combate deste problema são a informação e a prevenção. Ademais, foi apresentado quadro com recomendações frente a um indivíduo que possui risco de suicídio, como considerar a ameaça seriamente, falar sobre o suicídio por meio de perguntas diretas, envolver familiares, não deixar o indivíduo sozinho, dentre outros. A respeito da responsabilidade do profissional de saúde perante esse tipo de situação, o Acadêmico finalizou ressaltando a importância de identificar comportamentos de risco e fazer o encaminhamento correto deste indivíduo.

O Acadêmico Francisco Sampaio (presidente, ao centro) modera a discussão sobre a palestra sobre Suicídio. À esquerda, os Acadêmicos Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro e Antônio Nardi; à direita, o Acad. Claudio Cardoso de Castro

Após a palestra, os Acadêmicos presentes fizeram importante rodada de perguntas, que criou condições para debate que se seguiu por aproximadamente 50 minutos após o término da conferência. O Acadêmico Adolpho Hoirisch chamou atenção para o fato de que os médicos estão entre os profissionais que cometem mais suicídios, com especial menção aos psiquiatras. Os Acadêmicos Pietro Novellino e José Galvão Alves ressaltaram a importância de se abordar o tema com profundidade ao longo do curso médico; o Acadêmico Sérgio Novis destacou a responsabilidade dos clínicos no atendimento destes pacientes – aproximadamente 90% dos suicidas estiveram em algum tipo de atendimento médico nas 48h anteriores ao fato.

Os Acadêmicos Ricardo Cruz, Omar Lupi e Daniel Tabak apresentaram dados associados a suicídios em suas respectivas áreas de atuação. O Acadêmico Tabak chamou atenção para pesquisas que apontam a felicidade como uma propensão genética e todos os desdobramentos terapêuticos que essa descoberta pode trazer. Também fizeram importantes colaborações os Acadêmicos Omar da Rosa Santos, Henrique Murad, Hiram Lucas, Eliete Bouskela, Aderbal Sabrá e Azor José de Lima, que ofereceu testemunho sobre o suicídio de Getúlio Vargas.

 


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