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Sessão de 5 de maio de 2016 - Simpósio sobre Esporotricose nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo

No dia 5 de maio de 2016, a Academia Nacional de Medicina realizou um simpósio e a Sessão Plenária sobre a Esporotricose, que, segundo o Presidente Francisco Sampaio, consiste em uma zoonose que veio se alastrando pela cidade do Rio de Janeiro de forma preocupante no ano de 2015.

Acad. Nardi (Secretário Geral), Acad. Francisco Sampaio (Presidente), Acad. Cláudio Ribeiro (1º. Secretário)

Foi salientado na introdução do encontro que, com o registro de um número muito grande gatos acometidos com o fungo relacionado, transmitindo esta zoonose para humanos e sendo, muitas vezes, abandonados, este tema torna-se essencial para a ANM, de maneira que se possa contribuir para que os órgãos de saúde pública possam chegar a uma conclusão sobre bons diagnósticos e formas de combate dos agentes afetando estes animais.

O simpósio foi organizado pelo dermatologista e Acadêmico Omar Lupi da Rosa Santos, que vem desenvolvendo amplos projetos de conscientização em escolas e hospitais a fim de tornar temas como essa doença, cuja evolução ainda é muito desconhecida, tornem-se conhecidos e amplamente debatidos, sobretudo entre a população atingida.

Com palestra intitulada “Esporotricose e Agente Causador”, o Dr. Rodrigo Paes, da Fiocruz, chamou atenção para o fato de que a Esporotricose é a micose subcutânea mais frequente na América Latina. Ele apresentou também um breve histórico do aparecimento da doença e dos primeiros estudos sobre o assunto, instaurando o ano de 1998 como um marco para entender o status de “epidemia” que a doença possui no Brasil.

O Dr. Rodrigo Paes ressaltou que, apesar de ocorrer em todos os continentes, a Esporotricose no Brasil possui diversas especificidades, como por exemplo a forma de contágio: enquanto em outros países como China e Austrália a doença está relacionada a fatores ambientais, no Brasil a principal forma de contágio é por meio de gatos.

Na conclusão de sua palestra, o Dr. Rodrigo Paes frisou que a Esporotricose é uma doença extremamente negligenciada e que o conhecimento que se tem sobre a mesma ainda é precário, principalmente levando‐se em consideração o volume de casos relatados no país.

Acadêmico Omar Lupi da Rosa Santos

Em seguida, o Dr. Dayvison Freitas, também da Fiocruz, proferiu uma palestra sobre “Esporotricose Zoonótica”, focando nos gatos como principais agentes transmissores. Dentro de sua argumentação, ele classificou o estado da doença no Rio de Janeiro como hiperendêmico, considerando alarmantes os níveis de contaminação, tanto dos animais quanto dos humanos.

No que diz respeito à contaminação dos gatos, o Dr. Dayvison Freitas ressaltou que o principal obstáculo para a contenção da epidemia está relacionado ao destino que geralmente é dado aos animais infectados: muitas vezes, em vez de oferecer ao animal o tratamento adequado, muitos donos optam pelo abandono ou ainda pelo sacrifício do animal; na maioria das vezes enterrando-o, o que acaba por infectar o solo.

Em suas considerações finais, o Dr. Dayvison Freitas frisou que os gatos não podem ser tomados como “vilões” nesta epidemia ‐ os animais estão sob responsabilidade de seus donos e são, na verdade, vítimas deste processo.

Adiante, o Dr. Sandro Pereira, também da Fiocruz, proferiu uma apresentação com o título “Tratamento do Animal, Prevenção e Controle”, para tratar do diagnóstico e das formas clínicas da Esporotricose. Ele chamou atenção para o fato de que a doença se manifesta de maneira mais contundente em regiões com dificuldades socioeconômicas e que, dentro deste quadro, a transmissão por meio de gatos se dá por meio de arranhões, mordidas e contato com as lesões, além de estar muito associada aos hábitos do animal, que na maioria dos casos possui acesso irrestrito ao ambiente extradomiciliar.

O Dr. Sandro Pereira demonstrou que, apesar de serem documentados inúmeros casos envolvendo Esporotricose canina, a doença se manifesta de maneira mais grave em gatos.

O Dr. Antonio do Valle, da Fiocruz, falou em seguida, abordando “Esporotricose Humana: Diagnóstico”, de maneira que colocou que existirem diversos métodos de diagnóstico da Esporotricose. A pele responde por 95% das manifestações da doença; todavia, ela pode se manifestar em outros órgãos.

Ele colocou que é preciso estar atento aos casos de Esporotricose na infância, uma vez que as crianças em geral possuem o costume de deixar o animal em contato constante com o rosto, o que pode desencadear manifestações de Esporotricose ocular, por exemplo. A associação com o vírus HIV também foi apresentada como uma manifestação da Esporotricose disseminada.

A Dra. Isabella Gremião, da Fiocruz, apresentou palestra sobre o “Tratamento da Esporotricose Felina”, afirmando que, apesar dos constantes esforços e estudos acerca do assunto, o tratamento para a Esporotricose segue um desafio, principalmente em razão da limitação das opções terapêuticas, o alto custo do tratamento e a não adesão por parte dos proprietários dos animais.

O abandono do tratamento foi apresentado como outro grave problema; ainda que todos os donos sejam orientados a seguir com o ciclo completo do tratamento, isso não ocorre na maior parte dos casos, podendo implicar na reincidência da doença. Após demonstrar as opções de tratamento, a Dra. Isabella Gremião concluiu a palestra afirmando que algumas medidas são essenciais para o controle da epidemia, como o incentivo à posse responsável, o tratamento dos gatos com possibilidade de tratamento terapêutico, isolamento dos gatos doentes, estímulo à castração e limitação do número de gatos por residência, dentre outros.

Na segunda parte do Simpósio, a Dra. Mariana da Cunha e Silva, da Secretaria Municipal de Saúde, falou sobre a “Situação Atual da Esporotricose no Município do Rio de Janeiro”. Ela afirmou que a Esporotricose se caracteriza como um grave problema de saúde pública no Município do Rio de Janeiro, apresentando os dados referentes às notificações de casos de Esporotricose em suas diferentes regiões.

A distribuição de medicamentos na rede municipal foi abordada como uma das principais estratégias de controle da epidemia, aliada à conscientização dos donos – esta tida como a principal ferramenta de combate ao preocupante quadro da doença no município.

Na conclusão de sua palestra, a Dra. Mariana da Cunha e Silva chamou atenção para a coordenação entre os mais diversos órgãos ligados à Prefeitura e ao Governo do Estado, afirmando que somente a articulação da esfera pública com a população pode resultar no controle da doença de maneira efetiva.

Por último, a Dra. Maria Cristina Mendes, do Centro de Controle de Zoonoses de São de Paulo, proferiu palestra sobre “As Ações de Controle no Município de São Paulo”, apresentando um histórico com os primeiros casos notificados no município.

Informou que o padrão de notificações observado no município está associado às regiões que possuem dificuldades socioeconômicas, principalmente na Zona Leste da cidade. Após realizar um trabalho de notificação dos casos, foi realizada a distribuição dos medicamentos para tratamento dos animais doentes.

Em suas considerações finais, a Dra. Maria Cristina Mendes ressaltou que o sucesso das ações do Centro de Controle de Zoonoses está associado à criação de um vínculo de confiança entre os proprietários de animais e os funcionários do Centro, o que facilitou a propagação das ações de controle, além de aumentar a rapidez com a qual novos casos são notificados e evitar a interrupção do tratamento.