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'Artistas prestam serviço à sociedade'

Jornal O Globo - 03/07/2013 11:27:02

Presidente da Academia Nacional de Medicina, o cirurgião oncológico Marcos Moraes fala sobre a importância das celebridades na percepção social do câncer. Moraes ganhou o prêmio da Fundação Conrado Wessel 2012 de Medicina

Duílo Victor

duilo.victor@oglobo.com.br

Qual o futuro do tratamento para o câncer?

O câncer não é uma doença comum. São muitas doenças diferentes, mas com um distúrbio em comum, a reprodução desorganizada da célula. Mas ela ocorre em vários órgãos diferentes, tem formas de disseminação e comportamentos diferentes. Não acredito em tratamento único. Há mais de 100 doenças sob o título de câncer. Acredito que o futuro vai passar pelo estudo da biologia molecular e da genética, além da adoção de hábitos saudáveis de vida.

As celebridades com câncer ajudam na melhora da percepção do câncer na população?

Não só para mostrar que é uma doença que pode matar, mas que pode ser curada. Líderes comunitários, esportistas, políticos e artistas que vão à público descortinar sua doença estão prestando um serviço à sociedade. Em geral, são tratados nos melhores hospitais, mas, pelo menos, a divulgação da doença passa a ser aceita, por mais negativa que seja a imagem do câncer.

O senhor tem uma posição crítica sobre a forma como se trata o câncer, não é mesmo?

Há uma tendência em usar novos medicamentos para os quais o mundo ainda não conseguiu estabelecer um preço justo. Falo dos anticorpos monoclonais, que são caríssimos, e alguns deles não têm benefício claramente estabelecido. No Brasil, ainda temos a judicialização do tratamento (em que se obriga, pela Justiça, o acesso ao tratamento). Qualquer médico passa receita de um anticorpo monoclonal para um câncer de mama secundário (que veio de outros órgãos), e o tratamento passa de R$ 300 por mês para R$ 15 mil. Nenhum país aguenta isso. Se comparar a eficácia desse tratamento com o tradicional, a diferença quase não existe. Além disso, os efeitos colaterais são grandes. Não estamos contra o medicamento, mas contra o uso indiscriminado em detrimento ao orçamento para tratar todos os pacientes com câncer no Brasil.

Mas não é uma questão, então, de atualizar os protocolos médicos para este tipo de tratamento? Digo isso por que se passa a impressão para o público de que esses medicamentos são mais caros, mas resolvem o problema...

Infelizmente (o anticorpo monoclonal) é oferecido dessa forma. É a última coisa que se tem para fazer, até por que, às vezes, o paciente está nos últimos momentos de vida. Tem que se dar atenção ao fim da vida, não com medicamentos que não fazem mais diferença, mas com carinho, com treinamento da família e atenção. Esses pacientes são tratados como párias do sistema.

Qual a diferença então entre o que o senhor pensa e o que se pratica em relação ao tratamento paliativo?

A rigor, o ideal é que seja feito com a participação da família. O paciente precisa de carinho e atenção como pessoa, não quer mais remédio que não vai adiantar nem ser tratado como mais um, sem receber informações sobre o que está acontecendo. A solução é treinar a família e dar os meios necessários para saber tratar o paciente com apoio, com visitas diárias de médicos, medicamentos para retirar a dor, dar conforto e não dar mais sintomas. Cesta básica para família, se necessário. Isso não é utopia, já é praticado na Inglaterra há 80 anos. E a Fundação do Câncer tem mais de 15 anos de experiência com isso. Temos mais de 300 pacientes em casa. Se a família não suporta mais, temos uma unidade para receber o paciente. Ele passa o dia lá, recebe atenção, e depois passa a noite em casa. Na Inglaterra, a cada 250 mil habitantes, há uma unidade como esta. O paciente não fica escondido atrás dos aparelhos da UTI e sem saber de nada.

Quando foi que se errou então, achando que tinha que tratar na UTI até o fim?

Com o avanço da medicina e da atenção às coisas agudas, transformou-se o cuidado do agudo em cuidado ao crônico. Parece que é uma vergonha a pessoa morrer. Começamos a morrer quando nascemos. Lembro da morte de meu avô, quando a família toda se reuniu em volta dele, uma bonita despedida. Hoje, o paciente fica na UTI, com direito de receber uma visita de uma hora por dia, e quem trata não sabe nem o nome do paciente.

Como o senhor vê a proposta do governo federal em trazer médicos estrangeiros ao país?

O maior problema não é a falta de médicos, talvez o grande problema seja a alocação dos profissionais. Pode-se trazer 500 mil médicos para o Brasil que não se resolve o problema. A administração da saúde no Brasil é muito desorganizada e subfinanciada. As pessoas acham que construir hospitais e comprar equipamentos resolvem o problema. Pode-se ter o melhor hospital e o melhor equipamento do mundo que haverá uma medicina de péssima qualidade se não existirem médicos preparados. O problema então passa desde o ensino médico, que é muito carente no Brasil. Os hospitais universitários são muito mal pagos pelo governo. Sou de uma época em que os hospitais universitários eram o top da medicina. A solução está muito intrincada com o problema da educação médica, que é muito descuidada.

Em que sentido é descuidada?

Precisa de um mecanismo ágil de gestão: compra de material, critérios para abrir escola médica e qualificação de pessoas. Há escolas que não tem a mínima possibilidade de ensinar nada. Essa mesma crise ocorreu há cem anos nos EUA, quando o governo nomeou alguém com poder forte para analisar o ensino médico. Eram cerca de cem faculdades de medicina na época, e o relatório recomendou o fechamento de 80 delas. E foram fechadas. Começou-se a ter uma série de requisitos e regras para padronizar o ensino médico e o ensino pós-graduado. Como vamos ampliar as vagas de residência médica se os hospitais estão à míngua?

Mas o que se denuncia é que falta médicos nas emergências...

Um dos argumentos para contratar mais médicos é que os hospitais de emergências são cheios e ocupados. Há falta de médicos porque há falta de planejamento. Hospitais públicos todos têm dificuldade de ter mecanismo flexível de gestão. Se para comprar um medicamento para atendimento de urgência é preciso abrir licitação, o paciente morre. A falta de médicos é um fator correlato, mas não o principal. O principal é a falta de organização. O programa de Saúde da Família é uma forma de organizar a saúde, sobretudo no interior. É muito simples transferir o problema para a falta de médicos e acusar a classe de ser corporativista. O que não atrai o médico para o interior é a total incapacidade de exercer a medicina, estamos cansados de ver casos de médicos que voltam, mesmo com salários de R$ 35 mil.

Fonte:

O Globo - RJ - RJ - Ciência - 03/07/2013

Camilla Maia - O Globo

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