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complicações pulmonares pós-incêndio

Na primeira sessão do ano, em 28/02, o acadêmico gaúcho José de Jesus Peixoto Camargo proferiu a conferência “complicações pulmonares pós-incêndio”, na qual citou sua experiência no tratamento das vítimas do incêndio da boate Kiss, em 27 de janeiro, em Santa Maria (RS).

 

O cirurgião torácico apresentou não só uma revisão médica sobre o tema, mas também o relato de algumas histórias pessoais das vítimas e de sua experiência diante da tragédia. “No dia seguinte ao incêndio, houve 76 transferências de pacientes por helicóptero para os hospitais de Porto Alegre, em apenas uma tarde. O parque da redenção, que fica no centro da cidade, foi transformado em heliponto, pois fica mais próximo aos hospitais que seriam utilizados, e foram chegando os vários pacientes, todos já traqueostomizados”, relatou. Assim, sua equipe tratou de diversos acidentados no hospital da Santa Casa de Misericórdia.

 

Dentre as explicações médicas, Camargo esclareceu sobre os diferentes tipos de injúrias que podem ser causadas às vias respiratórias em casos de incêndio, que variam entre queimaduras, envenenamento e asfixia. No caso, além da asfixia, os pacientes também tiveram majoritariamente envenenamento por cianeto, um gás extremamente venenoso. “Quanto mais cianeto, menos tempo as vítimas teriam para sair da boate. Se fosse só monóxido de carbono, as vítimas teriam até 5 minutos para sair”, explicou.

 

O acadêmico esclareceu que o tratamento no caso de envenenamento é mais complicado, pois além de oferecer mais oxigênio, é preciso tentar remover a substância do organismo. “As alternativas contra o cianeto são o uso de nitrato, tiossulfato de sódio e de hidróxidocobalamina, esta última que nos foi enviada em muitas doses pelo governo americano, como numa operação de guerra”. Mesmo assim, Camargo não está certo sobre a eficácia da terapia. “Não temos nenhuma segurança de que a hidróxidocobalamina será útil, pois parece que depois de um tempo após a intoxicação a substância já não tem mais tanta utilidade.”

 

Além destes, Camargo citou outros tratamentos utilizados em alguns dos pacientes, como a promoção de hiperventilação mecânica sem alcalose, uso de óxido nítrico e de oxigenador de membrana, que foram bastante úteis. Porém, comentou sobre o fracasso do corticoide, que não mostrou ter nenhuma atividade positiva nesse tipo de situação, além de comprometer ainda mais o sistema imunológico dos pacientes. Portanto, a equipe médica aprendeu muito com essa população, que é muito diferente do paciente com deficiência respiratória convencional. “Foi uma situação extremamente traumática para todos. Nos demos conta de que o atendimento desses pacientes com insuficiência pulmonar depois da inalação de gases tóxicos é uma especialidade dentro do centro de tratamento intensivo, uma avenida ainda a ser explorada”, admitiu.

 

Mesmo com todos os esforços pela cura dos pacientes, o cirurgião apresentou sua preocupação constante com o caso: “Temos a impressão de que a coisa nunca termina, pois ainda temos 19 pacientes entubados, alguns com sequelas tão graves que provavelmente nunca irão melhorar. E quantos destes pacientes no futuro serão candidatos a transplantes? Quando essas pessoas conseguirão voltar a dormir normalmente? Quantos sofrerão de síndrome do pânico? A forte relação desses pacientes com a equipe médica e a emoção dos abraços durante as altas são grandes denunciadores da emoção que eles viveram.”



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