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ANM, ABC e Inca homenageiam Ricardo Brentani

 

Claudia Jurberg

 

Uma iniciativa conjunta reuniu as Academias Nacional de Medicina (ANM) e Brasileira de Ciência (ABC) e o Instituto Nacional do Câncer (Inca) para celebrar uma homenagem póstuma ao pesquisador Ricardo Renzo Brentani. Com a presença de familiares, amigos, cientistas e médicos, as solenidades tiveram inicio, pela manhã, no Inca, e prosseguiram à tarde na sede da ABC.

 

De manhã, o presidente da ANM, Marcos Moraes, destacou traços marcantes da personalidade de Brentani como a coragem, determinação, a garra e o sangue italiano. “Ao mesmo tempo em que explodia de raiva quando não conseguia ser compreendido em seus objetivos maiores, era um coração extremamente generoso. Uma pessoa desprovida de ódio. O ódio era algo que passava rapidamente em Brentani”, lembrou Moraes.

 

Foram 20 anos de amizade, segundo Moraes. Quando Brentani entrou para dirigir a Fundação Antonio Prudente, em São Paulo, Moraes ingressou na Fundação do Câncer.  Em seu discurso, afirmou “uma instituição só consegue ser grande se tiver um líder forte. Uma instituição só é grande se tiver amigos fortes. E isso Ricardo teve. O papel do Ricardo na renovação e no enfrentamento das tradições da Fundação Antonio Prudente não seria tão grandioso se não tivesse o apoio de José Ermírio de Moraes Neto.” Por fim, ressaltou que Ricardo foi um grande companheiro de todas as instituições correlatas, seja apoiando ou discordando e, principalmente, nos momentos difíceis quando as decisões sobre a política nacional contra o câncer eram árduas,

 

O diretor do Instituto Nacional do Câncer, Luiz Antonio Santini falou sobre a singela homenagem e a coincidência entre os  75 anos que o Inca completa e que Brentani, se estivesse vivo, também faria. “Juntar seu nome ao nosso espaço é uma honra. Nós é que nos sentimos homenageados com essa possibilidade. Este ano marca um novo momento, pois estamos investindo em inovação e este tema significa encarar algumas dificuldades não só no Inca, mas no país inteiro.”  

 

As homenagens pela manhã terminaram com a entrega de uma orquídea pelo diretor do Inca, à viúva e pesquisadora Mitzi Brentani que, muito emocionada, agradeceu as homenagens à memória de seu marido e afirmou que toda a família se sentia lisonjeada. Como os demais oradores, Mitzi ressaltou aspectos marcantes de Brentani. “Eu sempre segui a carreira do meu marido com surpresa, pois ele realmente era um cientista inovador. Há 30 anos, ele me disse: chega de biologia celular, precisamos fazer algo mais prático e a oncologia é uma área pouco explorada e assim surgiu o laboratório de oncologia experimental, juntando, já naquela época, a radiologia e a quimioterapia num mesmo ambiente.” Ele tinha, sobretudo, visão a respeito da importância do avanço da tecnologia o que veio depois a ser implementada no AC Camargo. Segundo Mitizi, o AC Camargo acabou se tornando sua menina dos olhos. Por fim, agradeceu aos alunos de Brentani e aos colaboradores que acreditaram nele.

 

Uma visita ao prédio da pesquisa onde será fixada uma placa que dará o nome do cientista ao prédio da pesquisa no Inca encerrou as homenagens pela manhã.

 

À tarde, na Academia Brasileira de Ciências falaram o presidente, Jacob Palis, o orador da ANM, José Messias, a filha de Brentani, Bárbara, o conferencista Dr. José Ermírio de Moraes Neto, entre outros acadêmicos.

 

Jacob Palis iniciou sua exposição ressaltando a estreita colaboração entre as duas academias, inclusive, nesta homenagem a Ricardo Brentani, mas que se fortaleceu, primordialmente, neste momento em virtude das obras na ANM, e que, para ele, sem dúvida, será duradoura. “É uma honra para a ABC homenagear um grande cientista que foi também um grande colaborador. Para falar de Brentani, Palis contou a todos que em 2006 organizaram uma reunião da Academia de Ciências do Terceiro Mundo (TWAS), em Angra dos Reis, e o Brentani teve uma atuação magnífica, representando o Brasil numa sessão de vanguarda. “Essa é a memória que temos do Brentanti.”

 

A filha do pesquisador, Bárbara Brentani, também muito emocionada, disse o quão difícil era falar naquele momento, pois guarda em sua memória a imagem de um pai sempre muito alegre, espírito jovem, interessado em tudo, exemplo de coragem, determinação e integridade. Para ela, Brentani era mais que profissional dedicado. Ele tinha um estilo muito peculiar: “ele não planejava absolutamente nada, mas de repente, ele fazia tudo acontecer”. Dono de uma franqueza arrasadora, defendia seus ideais sem rodeios, com a força de um leão. Para ele, sem caráter e sem competência, não havia ciência. “Eu apenas acrescentaria algo mais a esta frase: sem amor ao próximo, não há ciência. Eu acredito que o maior legado do meu pai é a dimensão humana que ele deu à ciência, a ciência como um meio de auxílio ao próximo.” finalizou.

 

Dr. José Ermírio de Moraes Neto em sua conferência intitulada “Minha experiência com o desafio da profissionalização das Instituições Filantrópicas no Brasil e do aprimoramento nos modelos de governança. O papel do Professor Ricardo Renzo Brentani na Fundação Antonio Prudente” contou as histórias da Fundação Antonio Prudente e do hospital AC Camargo. Das dificuldades enfrentadas na década de 90, quando a inflação era incontrolável e os 190 médicos, em um determinado momento, deveriam receber um reajuste de mil por cento e tiveram que tomar uma decisão bastante difícil: demitir a todos e incentivar que se organizassem em cooperativas. Naquele episódio, contou José Ermírio, 90 por cento aderiram trabalhar nesse novo modelo que foi precursor da terceirização e acabou atraindo excelentes profissionais interessados pela interdisciplinaridade.

 

O AC Camargo, conforme contou, conseguiu assim sair de uma situação deficitária com um endividamento que corroia 80% dos recursos para uma situação superavitária. “ Hoje, a remuneração está atrelada à performance e não ao tempo de serviço. Tratamos igualmente pacientes do SUS e conveniados. Foi realizado um trabalho muito grande de esclarecimento. Atualmente, na mesma sala estão sentados um paciente SUS e um conveniado que serão atendidos pelo mesmo medico. Antigamente, atendíamos a cada ano, 3.500 novos casos. Hoje, anualmente, o AC Camargo recebe 15 mil. Consultas diárias são 1.500. “Em 2011, fizemos cerca de 15 mil internações com 82% dos leitos ocupados, realizamos 185 mil exames de imagem, 1 milhão e 400 mil exames, além de outros dados expressivos. José Ermírio destacou em sua conferência o papel de Ricardo Brentani nesse exemplo de excelência para a saúde e a ciência.

 

O acadêmico José Messias inspirou-se em Luis Fernando Veríssimo que citou Samuel Beckett em sua crônica desta semana no Jornal para deixar uma mensagem. “Não morremos. Mudamos de tempo. Para ele, de tempo verbal do ‘eu sou’ para ‘ele foi’, inclusive, também do sujeito da frase. A Academia Nacional de Medicina afirma e afirmará sempre que Ricardo Brentani é presença permanente hoje e sempre. Ricardo, obrigado por estar aqui conosco e até qualquer hora”.

 

 



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